Monthly Archives: Novembro 2012

Um rectângulo a correr: Pizza a Pezzi, Lisboa

Muitas vezes um restaurante é tão bom como a comida que serve. Outras tantas, o sítio em questão vale por oferecer o produto certo, à hora certa, no sítio certo. E é nesta categoria que, no nosso parecer, se inscreve o Pizza a Pezzi.

Uma das coisas que nos chateia – e a muita gente que vive ou passa tempo em Lisboa fora do horário das 9 às 5 – é haver poucos locais onde se possa comer decentemente, dentro de um infindável universo de cafés, restaurantes, tascas, casas de pasto, ou até roulottes (pré-ASAE).

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Nem tudo o que brilha é ouro

Não só mas também tirando partido desta mesma realidade que afecta inexplicavelmente o eixo Bairro Alto/Príncipe Real, surgiu o Pizza a Pezzi, dos mesmos donos da Pizzaria Casanova em Santa Apolónia (ao lado do Lux/Bica do Sapato), e que recomendamos com menos entusiasmo do que esta última. O Pizza a Pezzi cumpre pelo menos uma função, que é matar a fome do noctívago que não está disposto a comer um pão com chouriço oleoso e indigesto / pastelaria genérica da Rua da Rosa, apostando na prática de preços (mais ou menos) low-cost e optando pela venda de fatias de pizza rectangulares cortadas à vontade do freguês e cobradas ao peso, num ambiente despachante que convida sobretudo ao take-away: o espaço é muito reduzido, sem casa de banho, e com um balcão que permite a não mais do que 5 pessoas comer em pé e de costas viradas para o forno e para a pessoa que está a atender. Falamos, portanto, de fast food no Príncipe Real, que é como quem diz “comida rápida para quem tem o carro à porta com os 4 piscas”:

Depois de inúmeras idas rápidas ao Pizza a Pezzi – quase sempre nos contextos anteriormente referidos –  um dos aspectos que nos saltou imediatamente à vista (e ao palato) como sendo menos positivo foi a quantidade evidente de gordura nas pizzas. Queremos acreditar que o excesso de gordura (leia-se “brilho”) foi a solução encontrada para dar a permanente ilusão de frescura nas pizzas, num sítio que vende à fatia, que oferece diariamente uma grande variedade (chega a ter mais de 10 tipos prontas a comer) e que está aberto das 11h30 até às 02h00. Os produtos têm qualidade e vão ao encontro da tradição italiana (queijo ricotta, salsicha napolitana, presunto de Parma, cogumelos porcini e de outras espécies).

Posto isto, de todas as variedades que temos experimentado ao longo dos 2 anos desde que a abertura do Pizza a Pezzi (celebrados em Agosto passado), encontram-se entre as mais recomendáveis a pizza de figos e presunto e a de mozarella de búfala, tomate e manjericão. Esta última em especial não recorre à mesma quantidade de óleo porque usa ingredientes frescos, logo é altamente recomendável. Num registo um pouco mais barroco, aquela que une camarão a maionese e rúcula é um exemplar já muito distante do que se espera de uma pizza em forma e conteúdo, tendo em conta que é disposta assim já cozinhada no expositor e aconselhada a comer fria. Contudo, também nós ficamos rendidos a esta réplica / homenagem sincera aos sabores, texturas e temperaturas remniscentes de restos do frigorífico.

Na última visita, e parcialmente motivados por escrever uma peça sobre o Pizza a Pezzi, provámos duas variedades: a de presunto de Parma com cogumelos e a de salsicha napolitana com bróculos. De referir que a primeira saiu vencedora, sendo a combinação bastante mais feliz para o nosso gosto. A massa estava fresca (provavelmente por ter sido feita há menos tempo do que a outra que iremos referir de seguida), e a combinação entre o presunto crocante e os cogumelos, sem grandes invenções estilísticas, funcionou muito bem. Seguiu-se a de bróculos e salsicha napolitana, que por sua vez não nos impressionou tanto: os bróculos não tinham a força desejada e, ao contrário do que se poderia imaginar, não complementaram tão bem o sabor mais visceral da salsicha napolitana. As outras pizzas disponíveis eram de alcachofras, quatro queijos, salpicão, ricotta e salsicha napolitana, e Marguerita. A Marguerita não é, como em muitas outras pizzarias, a base que sustenta a pirâmide da ementa, mas sim uma surpresa menos agradável que nos faz perceber, de uma vez por todas, que a sobreposição divinal de polpa de tomate e queijo mozzarella só é superlativa quando acaba de sair fresca de um forno, devendo jamais e em circunstância alguma ser reaquecida.

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De frente para o mosaico

Ainda que com uma roupagem sofisticada transversal a todos os restaurantes do grupo Casanova, o Pizza a Pezzi pode em alguns aspectos ser comparado a “certas” cadeias de fast food, mesmo que ao lado destas não proporcione aos seus clientes assíduos tanto uma auto-estrada para um enfarte ou trombose, mas mais uma caminhada numa rota cénica para níveis de colesterol perigosos.

Recomendamos a visita com moderação e de preferência fora do horário de funcionamento dos seus restaurantes preferidos.

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Bons bocados: Tasca do Gordo, Lisboa

Escondido na Rua dos Cordoeiros em Pedrouços, por entre barracões que podem ser descritos como cemitérios navais e por um mastodôntico prédio em construção, encontra-se um dos nossos locais preferidos para almoçar: a Tasca do Gordo.

Coexistência pacífica entre Gordo e cor de rosa.

Apesar da proximidade do Tejo e de as opções de peixe serem altamente recomendáveis, o Gordo é sobretudo conhecido por duas especialidades: a dobrada (também disponível para take-away em recipientes que são carinhosamente apelidados de baldes) e a espetada. Este post terá como missão fundamental converter os leitores à primeira especialidade que é, na nossa opinião e conhecimento empírico, a melhor e mais apetecível versão servida na capital e arredores.

O Gordo foi sujeito a uma remodelação profunda no final deste Verão; lamentamos não ter captado esta pérola no seu esplendor tascoso: uma sala minúscula com capacidade para não mais de 20 pessoas, com um balcão para cafés e cozinha à vista da sala e aberta para a rua; as 4 paredes repletas de benfiquismos variados (mais um cachecol do Belenenses) e a entrada para o cavernoso WC assinalada com um calendário do Sporting.

Apesar de a tendência lampiã continuar bem patente na escolha das cores dos novos azulejos, do velho Gordo só resta o que interessa, que é a combinação infalível entre a excelente qualidade dos pratos servidos, as doses generosas e os preços pré-troika (e os baldes). A sala foi ampliada, havendo agora um segundo ambiente com capacidade para mais 20 lugares, o que significa que já não temos de chegar às 12h15 para evitarmos ter de esperar por mesa: agora basta chegarmos às 12h30. Sim, porque mesmo com mais lugares e apesar da localização no wasteland ocidental de Lisboa, o Gordo continua a ser um restaurante muito procurado e concorrido à hora de almoço, uma vez que a casa manteve – felizmente – a política de não aceitar reservas durante este período.

Na nossa última visita, não resistimos a preparar caminho para a meia dose de dobrada com uns filetes de cherne com arroz de cenoura. Os filetes bem fritos eram da variante “almofadada” e não crocante pincelado a óleo, o peixe muito fresco e o tempero acertado. O arroz não malandrinho, mas molhado q.b., era saboroso e solto.

O outro lado do Gordo.

Mas passemos ao que mais interessa: uma tigela de barro com meia dose que chega perfeitamente para 2 pessoas com fome, acompanhada de arroz branco. O feijão branco, a cenoura, os enchidos e os bons bocados de tripa gelatinosa mas trincável, envolvidos por um molho extremamente apurado e com um ligeiro mas agradável picante. Sendo que a experiência pode ser intensificada por um picante caseiro sem falhas, de textura “filigrânica”, e com um sabor/ nível de fogosidade perfeitos.

Some like it hot.

Para os leitores mais desmotivados pela possibilidade de interacção com esta iguaria esteticamente tão pouco apelativa, recomendamos que experimentem a versão do Gordo pelo menos uma vez: ao contrário da maioria das dobradas com que nos cruzámos ao longo da vida, esta variante consegue a proeza de contornar por completo o cheiro pungente que torna difícil a ingestão de confecções menos bem conseguidas deste prato. A verdade é que a leveza do molho, a descomplicação dos ingredientes e os contornos do picante elevam os bons bocados servidos no Gordo a uma dimensão à parte. Se o medo persistir, dêem a mão a uma espetada, ou a qualquer outro prato do dia .

Bons bocados.

Resta acrescentar que a Tasca do Gordo serve almoços (e baldes) aos dias de semana, só abrindo para jantar mediante reserva prévia e com um número mínimo de 15 pessoas (obviamente, e para evitar que as pessoas rebolem durante a noite, a dobrada só é servida à hora do almoço). E ao contrário de certas “Tascas” e “Petiscarias” mais modernas e verdinhas – para não usar um adjectivo menos simpático -, o Gordo facilita e aceita pagamento por Multibanco; ainda que, para uma refeição como esta com que o Miudezas se deliciou, baste ir-se munido com uma nota de 20€.

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Descubra as diferenças: Honorato vs. Hamburgueria do Bairro

Quem for à Travessa do Monte do Carmo 19, ao Príncipe Real em  Lisboa, desengane-se se pensar que vai encontrar os melhores hamburgers de Lisboa, que é como quem diz: o Honorato. Uma espécie de doppelgänger existe ali agora, de seu nome Hamburgueria do Bairro, que está para o primeiro como o gato para a lebre e que, logo a julgar pelo nome, se percebe que o conceito de originalidade não abunda na mente dos responsáveis.

Passamos a explicar: consta que o brasileiro Márcio Honorato (que criou a homónima casa de hamburgers no fim de 2011) foi um dos prejudicados pela nova Lei do Arrendamento. Após um desentendimento com um senhorio que, ao que consta, teve mais olhos do que barriga, Honorato foi obrigado a procurar um novo poiso, que fica agora na Rua da Palmeira, nº 33. Entretanto na Travessa do Monte do Carmo, surgiu esta nova Hamburgueria, que se “aproveitou” desde a mobília até ao quadro de giz na parede, não esquecendo a placa e o logotipo que identificam a entrada do restaurante; em suma, vampirizou não só a imagem como também o conceito de pelo menos um dos pratos de assinatura do verdadeiro Honorato: o hamburger de picanha.

Impossível de clonar é a real afeição que os lisboetas de bom gosto nutriam pelo Honorato original, como é o caso do grupo Capitão Fausto, que baptizaram um hamburger com o nome da banda, eleito por muitos como o melhor da casa.

Falcão – maionese divinal à espreita

Depois de saber tudo isto, fomos ao Honorato saber como estavam as coisas após a mudança imposta e saímos de lá aliviados por perceber que o que mais importa (a área compreendida entre duas fatias de pão de sésamo, e regiões adjacentes) continua intocável. Naquela que não é definitivamente uma das capitais europeias conhecidas pelos seus hamburgers, contam-se pelos dedos das mãos os sítios em Lisboa onde podemos encontrar exemplares recomendáveis. Café/restaurante do cinema Monumental? A resposta é sim. Great American Disaster? Depois da operação de cosmética: não. Big Apple na Elias Garcia? Por confirmar.

À primeira vista, para quem conhecia o original, entrar no novo Honorato é um pouco chocante: o espaço é agora pelo menos três vezes maior e parece ter sido em tempos um qualquer restaurante genérico de comida típica típica portuguesa, cujas portas estariam fechadas há bastante tempo. Tem agora mais mesas e percebe-se imediatamente que se trataram de obras feitas a correr, para garantir uma reabertura em tempo recorde: os azulejos antigos foram tapados por uma tinta branca tipo gesso e o chão de tijoleira não nos parece mesmo o mais indicado (Confúcio terá dito em tempos “chove lá fora / o chão escorregadio / hamburgers voadores”). Ficámos um pouco mais descansados quando, atrás do balcão, reconhecemos algumas caras antigas dos mesmos jovens simpáticos e expeditos que trabalhavam no antigo espaço, agora em maior número para servir um maior número de clientes que o primeiro Honorato não podia albergar. Na realidade, pedimos e o tempo de espera foi consideravelmente menor do que o habitual, o que é admirável tendo em conta que o espaço estava bastante composto.

O Gorgonzola que não nos deixou embevecidos.

Optámos pelo clássico Falcão (cheddar, cebola, bacon e agrião) e por um Gorgonzola – uma estreia para nós – acompanhado de coca-cola, como convém. Estava tudo perfeito: a qualidade da carne bem selada e respeitando sempre o grau de cozedura pedido (Falcão mal passado e Gorgonzola médio), a quantidade de sal grosso grosseiramente distribuído, a dose certa de pimenta preta, as batatas de óptima qualidade, bem cortadas e bem fritas. O Falcão é uma aposta segura, várias vezes repetida, conciliando perfeitamente a tradição americana (o cheddar “plástico”) com uma abordagem mais refinada (qualidade excelente da carne, agriões frescos e cebola caramelizada). O “teste do algodão” que revela a qualidade da carne comprova-se através do estado do guardanapo depois da refeição: um bom hamburger não precisa de ketchup nem de mostarda quando a própria carne liberta o melhor molho que se pode desejar. Já o Gorgonzola, apesar da interessante justaposição de texturas e sabores, tem como nervo um queijo que não funde completa/facilmente, tornando-se por essa razão uma opção arriscada para os mais tradicionalistas. A coroar todo e qualquer prato do Honorato, está a deliciosa maionese de alho que acompanha as batatas fritas. A odisseia para descodificar a receita deste molho irá dar muitas dores de cabeça a quem a tentar; é este molho que faz perdurar a memória do hamburger, muito para além de onde a memória de um hamburguer pode saudavelmente ir. 

O guardanapo não engana.

Vamos ter saudades do antigo Honorato, de comer cá fora sentados num parapeito de uma janela enquanto contemplávamos a montra da loja de acessórios de luxo para animais. Quanto à hamburgueria-clone, esperamos apenas que quem a vá visitar se aperceba do mau karma, e que tenha a sensatez de fazer o desvio de umas escassas centenas de metros rumo ao melhor hamburguer de Lisboa. 

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Aquela base: (o novo) Colares Velho, Sintra

Depois de passarmos a tarde na Praia Grande a aproveitar o último 1 de Novembro enquanto feriado, lembrámo-nos dos lanches à lareira do Colares Velho (que sempre conheci como “a casa de chá de Colares”). Dirigimo-nos para lá na expectativa de encontrarmos e consumirmos o habitual: uma fatia de tarte de chocolate com uma colher gorda de chantilly mais gordo e acabado de bater, scones quentes com manteiga sem sal e um bule generoso de chá, com uma compilação de música clássica / canto gregoriano no fundo; em suma, apetecia-nos estar num ambiente discreto, civilizado e sintrense sem turistas.

Apercebemo-nos no minuto em que entrámos que se tratava de um novo Colares Velho, que tinha adoptado aquela postura – cada vez mais cansativa – do “tradicional with a twist“. Apesar de manter os móveis herdados do tempo remoto em que o espaço era ainda uma mercearia, tanto a nova decoração (com cores garridas, tecidos brilhantes e parafernália do Halloween) como a nova escolha musical (uma estação de rádio jovem que oscilava entre o auto-tune e a publicidade, a um volume desconcertante) depressa nos fizeram perceber que o lanche não seria o esperado.

Não nos tendo sido dada uma ementa à chegada, as opções à vista incluíam scones com bom ar, um bolo de bolacha (…), um bolo de chocolate mal passado e um cheesecake com doce de morango. Escolhemos estes dois últimos e um chá para dividir.

Apercebemo-nos ainda mais vincadamente de que já não estávamos no Kansas quando o anfitrião preparou o chá com água retirada da máquina de café de cápsulas, isto é, longe de estar a ferver. Não sem antes nos ter servido um prato de sobremesa com guardanapos de papel, pacotes de açúcar e um passador para o chá (que não o era como a foto comprova) com um ar triste e enferrujado.

Casa de chá jovem / “passador” velho.

Passando para os erros em formato sólido, um dos critérios que nos levou a optar pelo cheesecake foi aquela base: de confecção caseira, amanteigada e salgada q.b., com um tom caramelo e sem cair no farinhento. Por razões que, a nosso ver, se prenderam com questões de estética e apresentação, foi-nos servida uma fatia sem aquela base.

Procura-se aquela base.

Quando pedimos o bocado em falta, recebemos um 4º (!) prato de sobremesa com os ditos fragmentos que, embora deliciosos, não chegaram para apagar os repetidos momentos menos felizes que culminaram com uma surpreendente conta de 11 euros.

Loiça para lavar.

Tendo em conta que já não podemos contar com o velho Colares Velho (nem com a Tagarela ou com o Chá da Lapa – RIP), procura-se urgentemente uma casa de chá fora de um hotel, num ambiente sóbrio e com opções clássicas.

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Prato de entrada

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1 de Novembro de 2012 · 22:32