Monthly Archives: Dezembro 2012

Let’s do the time warp again: Big Apple, Lisboa

Desviando a atenção das hamburguerias recentemente abertas em Lisboa e o tempo de antena dado às mesmas, decidimos ir experimentar o Big Apple. Escondido na Elias Garcia e ignorado por praticamente todas as listas de hamburguerias da capital, este restaurante pertence à antiga gerência dos extintos Great American Disasters (o único sobrevivente fica no Marquês de Pombal, desde há um par de anos sob nova batuta e bastante afastado do conceito original), beneficiando por essa razão de 35 anos de experiência a servir hamburgers e outros pratos sem complicações.

Bigapple_ementa

Sem rodeios: hamburgers listados por ingrediente.

Reparámos imediatamente num conjunto de pormenores que comprovam o conhecimento da causa: entre outros detalhes, a primeira frase no topo da ementa refere que a casa serve “the yummiest char-broiled hamburgers in Lisbon” – aliás, muita da informação na ementa é mantida em inglês –, todas as mesas estão munidas de um frasco de ketchup Heinz, as paredes repletas de cartazes antigos trazidos dos Estados Unidos (o nosso preferido foi o mapa em que o estado do Texas ocupa quase todo o território dos EUA).

A decoração, acreditamos, manteve-se inalterada ao longo dos 35 anos de existência desta casa: cá fora o toldo com o um logotipo bem representativo do design menos bom dos 70s; lá dentro os já referidos cartazes,  os sofás e o reboco “tirolês” das paredes, aquela superfície rugosa tão em voga naquela década. Se isso poderia à partida gerar alguma estranheza – que não gera – o atendimento e a qualidade da comida, bem como o facto de haver uma televisão grande para vermos um jogo da Premier League enquanto almoçamos, são factores que convidam a permanecer no Big Apple por mais tempo do que o normal numa hamburgueria, tal qual um diner americano; ou seja, not so fast food.

Apesar do tempo londrino que se fazia sentir, o restaurante encontrava-se praticamente cheio e com uma notável diversidade de clientes, o que confirmou a nossa suspeita de que o Big Apple é sobretudo frequentado por regulars da vizinhança: isto inclui famílias, um casal de idosos que optou por um prato do dia (bacalhau com salada) em vez das especialidades da casa, grupos de estudantes do IST e demais habitantes das Avenidas Novas.

Clientes de longa data.

Clientes de longa data. 

Os hamburgers estão disponíveis nos tamanhos “médio” e “grande”, podendo ser acompanhados por batatas fritas ou por uma batata assada com manteiga,  e uma escolha de dois molhos (uma senhora maionese caseira ou molho cor de rosa). No Big Apple a ementa é mais directa e menos criativa, pelo que os hamburgers são simplesmente listados de acordo com os respectivos ingredientes: queijo e bacon / hickory BBQ sauce / ovo / simples / chili. Há ainda espaço para clássicos norte-americanos como o Southern-style fried chicken, ribs e grilled steak.

Hickory BBQ : melhor molho de barbecue que já provámos.

Hickory BBQ : melhor molho de barbecue que já provámos. 

Optámos por um bacon & cheese mal passado e outro hickory BBQ sauce médio, ambos acompanhados por batata assada. O hickory BBQ sauce é um molho à base de ketchup, molho inglês, cerveja e vinagre, muito saboroso e surpreendemente leve quando comparado a outros molhos de BBQ mais pastosos e intensos. Ficámos agradavelmente surpreendidos pela qualidade dos pratos e, especialmente, como no Big Apple a fórmula mais tradicional e descomplicada atinge níveis de excelência nunca antes vistos (por nós) na capital: o hamburger é alto e feito com carne de vaca (100%, sem mistura) de excelente qualidade, temperada apenas com sal e pimenta; o pão é do tipo brioche, adocicado e fofo como um pão de hamburger deve ser (certamente há opções mais saudáveis e menos processadas, mas o prazer não é o mesmo); ambos vinham com uma folha de alface e uma rodela de tomate colocados na altura certa, o que garante que as primeiras dentadas serão sempre mais crunchy, ao contrário de tantas versões que, por questões de logística / linha de montagem, não cumprem com os timings correctos para a inclusão destes ingredientes. Os tempos de cozedura diferentes foram cumpridos à risca, e tanto o bacon e o queijo cheddar como o delicioso molho hickory BBQ estavam perfeitos.

Bacon & Cheese.

Bacon & Cheese.

No que diz respeito aos acompanhamentos, a batata assada foi uma revelação, especialmente tendo em conta o risco plausível de sobredosagem de hidratos de carbono e amido numa refeição que se previa pouco leve. O tamanho, a quantidade de manteiga (sem sal, um grande ponto a favor!) e a combinação com os molhos oferecidos fizeram com que esta batata assada merecesse uma menção honrosa nos nossos acompanhamentos preferidos de 2012.

Havendo ainda espaço na barriga e muita vontade de experimentar as sobremesas, optámos por uma tarte de maçã caseira com uma bola de gelado de baunilha (este extra foi pedido por nós) e um gelado de baunilha com chocolate derretido. A tarte era mesmo caseira feita em casa, uma “pie” daquelas fechadas, cobertas com massa, repleta de puré de maçã com a quantidade estritamente necessária de açúcar. Foi um final apoteótico para a nossa refeição, e outro grande ponto a favor do Big Apple. Com duas coca-colas, a refeição saiu a 12 euros por cabeça (pagos por MB), o que nos parece um preço mais do que justo tendo em conta a qualidade, o serviço, a rapidez e o ambiente muito acolhedor e descontraído que nos abrigou de um dia chuvoso e cinzento.

Uma sobremesa com altitude.

Uma sobremesa com altitude.

Para nossa desilusão, temos ouvido alguns relatos menos bons de amigos que jantaram no novo Honorato, tendo ficado desmotivados com o espaço, com o tempo de espera, com o barulho e com as multidões. Acreditamos que muitas destas questões advieram de uma sobre-exposição mediática (para a qual o Miudezas também acabou por contribuir). É um desafio gerir uma fórmula tão bem sucedida sem descarrilar e comprometer a reputação adquirida e a garantida de uma boa experiência aos clientes, e desejamos sinceramente que, entre uma gestão mais inovadora do layout da sala, a implementação de um sistema de reservas, a instalação de um quadro eléctrico que não interrompa o serviço da cozinha e obrigue a encerramentos permaturos, e o estabelecimento de um horário de funcionamento fixo e cumprido, o Honorato recupere o seu mojo e continue a servir os melhores hamburgers de Lisboa a novos e velhos clientes.

Nesse sentido, sugerimos à equipa do Honorato que rumem às Avenidas Novas ao Big Apple e que tomem nota da fórmula simples, tradicional e despretensiosa desta hamburgueria da velha guarda que continua a dar cartas. E, já agora, que se inspirem e considerem a inclusão de uma ou duas sobremesas, bem como a possibilidade de pagamento com Multibanco. Num dia com ou sem chuva, o Miudezas vai certamente voltar a viajar no tempo e regressar a este time-warp da Elias Garcia, rumo a hamburgers e batatas assadas (e outros pratos que ainda nos falta experimentar), que garantem, para já, a medalha de prata ao Big Apple no pódio das melhores hamburguerias da capital.

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Alentejo fora de série: Galito, Carnide

Tendo em conta que o Galito é um dos bons restaurantes de comida alentejana em Lisboa, onde não cabem mais do que 38 pessoas sentadas, não é de estranhar que já não houvesse lugares, quando num Sábado há algumas semanas lá fomos, perto das dez da noite. Tocámos à campainha e o rapaz que nos abriu a porta explicou que se tratava de uma noite especial em que, para além de uma ementa fixa – que espreitámos e nos pareceu muito apetecível (lebre, sopa de cação) –  havia uma prova de vinhos. O próximo jantar seria dali a um mês e a recomendação era que devíamos reservar o quanto antes. Eternos procrastinadores que somos no Miudezas, esperámos até ao próprio dia para tentar fazer a reserva, pelo que foi-nos logo dito que era impossível. Mas o universo queria que jantássemos muito e bem naquela noite e, com um golpe de sorte, ligaram-nos passadas umas horas a avisar de que houvera uma desistência.

O Galito fica na parte antiga de Carnide, na zona limítrofe entre a área que compreende estacionamentos possíveis para quem quer ir ao outro estádio ou ao Colombo (parar o carro não foi fácil, visto que era Sábado à noite e estávamos a poucos dias do Natal).  Lá dentro: um espaço com as paredes repletas de recortes de jornal com artigos justamente abonatórios (nunca antes vimos tantos num restaurante), legítimos e compreendendo várias décadas, devidamente emoldurados, bem como alguns certificados e diplomas com reconhecimentos mais oficiais. Aqui não só se come comida tradicional e de inspiração alentejana, feita com requinte e perfeccionismo, mas também se bebe e bem, e a quantidade de garrafas de vinho que podem ser vistas na sala é prova disso. De referir ainda que se pode fumar em toda a área do restaurante, sendo que, apesar de não se tratar de uma sala grande, o sistema de extracção de fumos funciona na perfeição.

Na realidade, mais do que uma ementa pensada e cuidada para o dia em questão, havia o apelo acrescido de uma prova de vinhos da Casa Burmester, que fez questão de enviar uma jovem emissária para introduzir e divagar sobre os vinhos junto dos clientes (bocejo nº 1). Deixamos um aviso à navegação: no Miudezas, não somos nem vamos tentar parecer ser aspirantes a sommelier. Lamentamos não ter tomado nota de pelo menos dois dos vinhos servidos, que gostaríamos de recomendar e repetir para nosso deleite, mas estávamos demasiado contentes e absorvidos pela experiência desta ocasião especial.

Mal nos sentámos, trouxeram-nos pão alentejano (se não for efectivamente alentejano, exigimos saber onde em Lisboa é que se pode encontrar pão deste) e azeitonas óptimas de boa proporção, bem como o primeiro vinho do cardápio: um branco seco que, por ser demasiado doce, não apelou a metade do Miudezas (a outra metade não se importou por aí além ainda que tivesse detectado algo estranho).

Favas com chouriço

Favas com chouriço.

O primeiro prato da noite foi favinhas com enchidos: um chouriço de porco tradicional avermelhado e outro presumivelmente de porco preto, um pouco mais escuro. Ambos deliciosos, com especial destaque para o segundo, pela textura rica sem ser demasiado gordurosa, e pela complexidade de sabores e condimentos. De seguida, o primeiro vinho branco da noite, demasiado frutado, que mais uma vez ficou aquém das nossas expectativas. Nesta altura, a representante da Casa Burmester dirigiu-se à plateia comensal e fez uma apresentação daquela produtora e dos vinhos que tínhamos bebido e iríamos beber, confirmando, numa conversa permeada por termos do domínio poético/enológico (bocejo nº 2), que o primeiro branco tinha sido misturado com 7-Up. Uma escolha infeliz que não pareceu incomodar a maioria dos presentes, ainda que grande parte deles fossem conhecedores e interessados no que diz respeito a assuntos do Vinho. Aliás, vários clientes fizeram questão de interromper a interlocutora com perguntas sobre o o tipo de castas e afins.

Ovinhos de codorniz com mais chouriço.

Ovinhos de codorniz com mais chouriço.

A nossa impaciência aumentava, mas não muito, porque passado pouco tempo chegou o segundo prato:  sete (quantidade cabálica – para duas pessoas) ovos de codorniz estrelados com igual número de rodelas de chouriço, dispostas perfeitamente num prato e polvilhadas com oregãos. O ponto alto da noite foi a sopa de bacalhau com espinafres e feijão branco que se seguiu. De natureza indiscutivelmente alentejana, num caldo repousavam o bacalhau em lombos desfiados, os espinafres cozidos e o feijão. Ficámos maravilhados com o balanço entre o caldo quente tingido por aromáticos como coentros, oregãos e uma prodigiosa hortelã da ribeira (que despertou em nós memórias de uma infância mais aventurosa e em comunhão com a natureza), o salgado intenso dos lombos de bacalhau e a textura dos espinafres que literalmente se derreteram na boca, complementados por feijão branco cozido no ponto. A acompanhar, um segundo vinho branco, mais seco e de qualidade muito superior ao que fora anteriormente servido.

Sopa de bacalhau com espinafres e feijão branco.

Sopa de bacalhau com espinafres e feijão branco.

Por aqui poderíamos ter ficado, se logo de seguida não nos tivessem trazido mais um copo de vinho, o primeiro tinto da noite, que funcionou em pleno. As pausas entre os pratos foram calculadas na perfeição, e pensadas à medida de quem gosta de comer muito e bem (a refeição, incluindo todos os passos aqui descritos, prolongou-se por mais de 3 horas). Entretanto, por entre mais um longo interlúdio da representante da casa Burmester (bocejo nº 3 – por esta altura e em resposta ao final da apresentação e ao cerimonioso “espero que tenham gostado”, as pessoas ao nosso lado não se contiveram e fizeram questão de afirmar que “a gente gosta é do Galito“), e mais um copo do anterior vinho, veio o prato principal: migas de batata com presas de porco preto. Com a fasquia tão elevada, era difícil ter feito melhor do que a sopa de bacalhau. Efectivamente, embora este prato estivesse também irrepreensivelmente cozinhado e empratado de forma criativa (ver foto), não conseguiu suplantar o anterior. As migas de batata eram saborosas, ligeiramente ácidas, e em quantidade abundante. Já a carne, cozinhada em vinha de alhos, ficou um tudo nada aquém do que o que esperávamos de presas de porco preto talvez pelo excessivo protagonismo do sabor naturalmente rico dessa carne. Excelente foi o segundo vinho tinto que nos serviram, muito mais encorpado do que o primeiro.

Migas de batata com presas de porco preto.

Migas de batata com presas de porco preto.

A coroar todo este banquete, foi-nos servida a sericaia que ficará na memória como possivelmente a melhor versão desta sobremesa que alguma vez tivemos oportunidade de provar. O bolo propriamente dito tinha uma textura macia, com o tamanho certo, com uma quantidade generosa de mel e ameixa de Elvas. A comoção foi tanta que decidimos documentar esta experiência como a vivemos, em vídeo. No fim, mais um vinho da casa Burmester, do Porto, vintage de 1989, que, apesar de bom, pouco ou nada acrescentou ao sabor doce sem ser enjoativo da sericaia que fechou esta refeição com chave de ouro.

Estes jantares especiais realizam-se uma vez por mês, sempre a um Sábado, e ficam a 35 euros por pessoa incluindo tudo o que aqui foi descrito. Nos restantes dias, não hesitamos em recomendar a sopa de beldroegas com queijo de cabra, os pezinhos de coentrada e a perdiz de escabeche. Vale mesmo a pena ir além da 2ª circular para provar o melhor do Alentejo no Galito.

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O melhor do mar sobre o rio: Restaurante da Associação Regional de Vela do Centro

No que toca a comida, é fácil ser-se taxativo quando se sabe muito bem do que se gosta. Mas é consenso geral (e se ainda não é, devia ser), que Portugal tem o melhor peixe do mundo. É frequente ouvir falar de chefes com estrelas Michelin em França ou Itália que usam peixe proveniente da nossa costa. Tendo em conta que ambos esses países têm também uma longa costa e amplo acesso ao mar, aliado a uma cozinha mais reputada, influente e divulgada do que a nossa, isto torna-se especialmente assinalável. A nossa costa é generosa e oferece uma variedade infindável de peixe, marisco e tudo o que o mar e a areia têm de bom, sendo que a nossa cozinha brilha por saber elevar a qualidade destes ingredientes com simplicidade e certeza. E depois existe o bacalhau, que é toda uma outra história paralela e aparentemente inexplicável, para quem não sabe que nós somos em muitos aspectos um povo inexplicável, mas isto não é o assunto das linhas que se seguem.

Dentro dos nossos restaurantes de eleição em Lisboa, o da Associação Regional de Vela do Centro tem provavelmente um dos nomes menos cativantes. Mesmo enquanto sigla, a sua enunciação (ARVC) facilmente nos faz parecer ter problemas graves de dicção e complica o simples acto de o recomendar verbalmente a um amigo. Mas o facto de o nome deixar transparecer essa despretensão e falta de apelo marketizável é para nós mais um ponto a favor. Isto porque a comida que aqui se serve é também um pouco assim: simples e despretensiosa, mas inatacável. Aqui come-se do melhor peixe que há em Lisboa, sem grandes artifícios e invenções, à boa e velha maneira portuguesa. Apesar de ainda haver alguma oferta de óptimo peixe a preços praticáveis na capital (vamos escrever em breve sobre a Toscana, onde regressámos recentemente e fomos surpreendidos por uma senhora remodelação), Lisboa não é exactamente *o* local de eleição para se consumir peixe fresco, nem dos mais acessíveis: desde Moledo a Cabanas de Tavira, passando por Matosinhos, Sesimbra, Setúbal, e outras localidades, as possibilidades e a oferta ao longo do nosso rectângulo à beira-mar plantado são incontáveis, em ambientes e com um leque de preços para todos os gostos e bolsos.

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Varanda com vista.

Na doca de Belém, no meio de pelo menos mais dois ou três restaurantes (um de comida brasileira, outro dentro do mesmo género ainda por desbravar, mas bem referenciado por pessoas em quem confiamos) encontramos o restaurante do ARVC. Subimos a um primeiro piso dum edifício que foi em tempos um dos pavilhões da exposição do Mundo Português, e ao subir olhando pelas vidraças para dentro e para baixo, vemos o que agora é uma espécie de cemitério para barcos e demais parafernália náutica, mas que estranhamente ainda mantém intacto um mural que celebra a descoberta do caminho marítimo para a Índia. Essa justaposição cria logo um certo maravilhamento em nós, não só pelo que a experiência tem de insólito e anacrónico, mas porque sabemos que se aproximam a passos largos os melhores filetes de peixe galo que já comemos em Lisboa.

Já cá em cima, passamos uma porta de alumínio com um mapa gigante com variadíssimas espécies de peixe, gasto pelo tempo e com letra demasiado pequena para ficarmos a ler com atenção. Por trás da porta, deparamo-nos com uma zona de café pequena e estreita (onde também se come, mais rápido e mais barato) e um balcão, um pequeno viveiro para sapateiras e santolas, e um quadro com as especialidades do dia. E para este quadro olhamos de relance, sempre com alguma ansiedade à espera de percebermos se ainda há os tais filetes, a especialidade que tantas vezes nos leva à ARVC, e que nem sempre está disponível, tal é a procura.

Quando os filetes já foram consumidos por clientes que acordam mais cedo do que nós, e quando o saldo na conta assim nos permite, não hesitamos e seguimos caminho para a varanda coberta (há quem lhe prefira chamar marquise), onde nos sentamos numa sala onde o Tejo é inevitável. Entre um robalo do mar para dividir por 4 a 6 pessoas, cabeça de garoupa, filetes de outras variedades, dourada, salmonetes e afins não há muito por onde inventar.

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Bivalves divinais.

Foi assim que nesta tarde de Domingo, depois de sentados, optámos por umas amêijoas à bulhão pato e por um robalo para dividir. O couvert é composto por mexilhões em cebolada frios, salada de polvo, um queijo salvo erro de Serpa, um pão pouco entusiasmante (não é habitual), manteiga e azeitonas. As amêijoas estavam deliciosas como de costume: textura, tamanho e sabor apetecíveis, molho com a consistência certa e em abundância, com as respectivas reservas de pão com manteiga infindáveis para demolhar no que restava da travessa destes bivalves.

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In medias res.

Algum tempo mais tarde, não pouco, visto que o restaurante estava para lá de cheio e caminhávamos rapidamente para as três da tarde, veio o robalo. Escalado e pronto a ser consumido, não tão opulento quanto a anterior versão que o senhor nos trouxe fresco à mesa antes de seguir para a grelha. A acompanhar, batatas cozidas com pele, bróculos cozidos na perfeição e rodelas de limão e açorda de ovas. Nada mais simples do que isto. O peixe, de uma frescura a qualquer prova, estava impecavelmente grelhado e, ainda que para ser consumido por quatro pessoas (convém referir que já depois das entradas, das amêijoas e de uma quantidade gargantuana de pão), parecia não terminar; descobrindo-se sempre pequenos filetes quando dava a ideia de já não existir ali nada para comer. Contudo, e no meio de tanta coisa certa, parece-nos errado usar um recipiente de vidro em forma de garrafa de xarope para servir o azeite. O que é feito do tradicional galheteiro de ferro?

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Erro de casting.

Ainda numa nota menos positiva: porque nos apetecia prolongar o extâse induzido pelo robalo escalado, optámos pelas sobremesas. Uma das com que o Miudezas se deparou foi uma tarte de lima que era muito pouco entusiasmante. Com uma apresentação um tanto ou quanto artificial, marcada pelo splash ondulante e absurdamente desnecessário de caramelo líquido, toda ela já um pouco seca, quer no recheio propriamente dito, quer na base, tivemo-nos de refugiar no café para limpar o palato.

Ainda assim, nada que vá beliscar a memória de um robalo tão nobre como aquele com que nos deliciámos no restaurante da ARVC, nem deixar de nos fazer ansiar por uma próxima visita.

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Venerável: Bonsai, Lisboa

Temos o maior respeito por estabelecimentos coerentes e de identidade forte, que não cedem a pressões de modernização e reinvenção e que, por essa razão,  nunca surpreendem pela negativa. Quem entra na recta final da Rua da Rosa, quase a chegar à D. Pedro V, e atravessa as portas de ferro que conduzem ao pequeno espaço de decoração sóbria e tradicional, onde o tatami é o elemento predominante, sabe com toda a certeza que irá (re)encontrar um desses sítios. Ambiente discreto e civilizado, um atendimento dedicado e cordial como só os nipónicos sabem prestar, Sonatas de Mozart interpretadas por Mitsuko Ushida ou Maria João Pires em loop, um ou mais clientes japoneses ao balcão e, acima de tudo, uma refeição irrepreensível.

Pelo que conhecemos, o Bonsai proporciona a experiência gastronómica japonesa mais genuína no nosso país, atingindo também o equilíbrio mais interessante entre qualidade e preço. Louvamos outras ofertas mais tradicionais e menos sushi lounge na capital – Ken Ichi, Tomo, os jantares e almoços da Yuko no Kome Escondido; contudo, nenhuma destas opções oferece a qualidade e a diversidade do Bonsai a um preço tão justo. Apesar de sermos orgulhosamente omnívoros, é também importante referir as variadas e saborosas opções vegan e vegetarianas disponíveis neste restaurante, coisa incompreensivelmente rara no panorama dos estabelecimentos asiáticos na capital (cough cough, Hong Kong Grande Palácio).

Pratos do dia

Pratos do dia: a ementa escondida.

Para além da ementa variada que contempla várias especialidades da cozinha japonesa – sushi, tempura, sukiyaki, sopas e caldos, udon –, o Bonsai tem sempre uma oferta interessante e sazonal de daily specials. É no quadro de cortiça coberto por tiras de papel picotadas e pinceladas com caracteres japoneses (e com a respectiva tradução em português), que se encontram alguns dos melhores pratos servidos neste restaurante. Desde as bolinhas fritas de polvo com maionese, até aos espinafres frios com sésamo e miso, passando ainda pelo caldo de amêijoas da Ria Formosa com saké, não esquecendo a barriga de porco com mostarda picante, o tataki e o tártaro de atum gordo, recomendamos que se salte sempre a barreira do menu e se solicite o quadro de cortiça (a ementa escondida), garantindo dessa forma uma refeição mais diversificada e estimulante. Por exemplo, um dos pratos de inverno que estará disponível durante as próximas semanas é o oden, que é um prato à base de um caldo e de diversas iguarias escalfadas no mesmo: almôndegas de peixe, triângulo de claras, gelatina de algas e sésamo, ovo beige (à falta dos termos exactos, optámos por improvisar para fins puramente ilustrativos). Outras iguarias disponíveis desde que o tempo frio chegou para ficar incluem o uni (ovas de ouriço do mar, uma iguaria que pesa no bolso mas que deverá ser provada pelo menos uma vez na vida) e o wasabi verdadeiro (a cor é mais militar e menos atómica, a textura é fibrosa, o picante e as vibrações nasais: incomparáveis).

Oden

Oden: cozido japonês.

Quanto aos pratos clássicos que constam sempre no menu, recomendamos sem hesitação o sukiyaki, que é uma espécie de fondue japonês à base de caldo dashi servido num pequeno caldeirão, onde no fundo encontramos talos de couve estaladiça, tofu e diferentes tipos de cogumelos, e onde na superfície vão sendo cozinhadas fatias finas de carne de vaca. Estes ingredientes são embebidos numa mistura de gema de ovo servida à parte antes de serem cozinhados no caldo, sendo que todo o ritual proporciona sabores e texturas diferentes à medida que se vai avançando na refeição. O caldo que resta no final, enriquecido com os sucos libertados pelos variados ingredientes, é para nós uma espécie de poção que concentra as propriedades mais mágicas e cativantes do umami (o 5º sabor entre o salgado e o amargo) e pela qual suspiramos regularmente. Também o peixe servido no Bonsai é de excelente qualidade, fresquíssimo e correctamente cortado, e nesse sentido aconselhamos o chirashizushi, que é um prato de arroz coberto por diferentes tipos de sashimi, ovas de salmão, tamago (omelete japonesa), algas trituradas e hana ebi (que é como quem diz camarão em pó, uma espécie de botarga menos intensa e mais salgada, que dá um ligeiro e agradável sabor salgado ao arroz). Por último e entrando na recta das sobremesas, para quem se contenta com níveis de açúcar muito aquém dos da doçaria conventual, não podemos deixar de recomendar os levíssimos gelados japoneses, com ou sem doce de feijão (aproveitamos para aplaudir a decisão de deixarem de servir os gelados com uma sprayzada de chantilly de lata), com sabores como chá verde e sésamo.

Chirashizushi

Chirashizushi: leveza abundante.

O Bonsai pratica preços especiais à hora de almoço (destacamos o chirashizushi redux com menos sashimi e mais cogumelos shitake e tamago + sopa miso por apenas 12 euros), e disponibiliza também um menu troikiano a 10 euros, composto por sopa miso, salada de couve, miso e limão, 2 peças de sashimi ou sushi, prato do dia e café. Naquele que será provavelmente o único comentário menos positivo a um dos nossos locais de eleição, admitimos que estes almoços do dia têm sido muito repetidos, pouco diversificados e bastante menos saudáveis do que as restantes opções da carta: semana após semanas, as opções têm sido o hamburger japonês, tiras de porco com arroz e molho de gengibre e alho, o curry udon de vaca (delicioso mas de logística impossível para quem tem de regressar ao escritório e se esqueceu da gabardine em casa, por causa das inevitáveis nódoas), salmão teryiaki, ossinhos de frango frito e tempura de raiz de lótus.

Almoço

Fragmentos de almoço de 10€: tiras de porco com gengibre e alho francês.

Em todo o caso, se compararmos os preços praticados pelo Bonsai a qualquer buffet ou rodízio de sushinês, a escolha parece-nos óbvia. Embora gostemos de comer em paz e relativo silêncio (apesar de no Bonsai a música clássica ser inevitável, conforme referimos acima), impressiona-nos a fraca adesão dos almoçantes lisboetas a esta oferta tão convidativa, ainda para mais tendo o Bonsai uma página no Facebook bastante funcional e constantemente actualizada – o prato do dia é aqui divulgado diariamente antes do meio dia, sendo que o restaurante começa a servir almoços às 12h30. Felizmente, esta situação não se verifica tão pronunciadamente durante o período do jantar, sendo inclusive recomendável reservar antecipadamente.

Venerável é a coerência, a qualidade, o serviço e a experiência de uma refeição no Bonsai e mal podemos esperar pela próxima visita.

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