Monthly Archives: Fevereiro 2013

Discreta ou indigesta: as duas faces da clandestinidade chinesa

Antes de partilharmos as experiências do Miudezas em duas das salas de jantar chinesas situadas no lado ímpar da Rua do Benformoso, gostaríamos de aproveitar o facto de estarmos a abordar o tema para reflectir sobre a evolução curiosa e contraditória da imagem da cozinha chinesa no nosso país ao longo dos últimos anos.

Foi há 7 anos que a ASAE levou a cabo a sua “Operação Oriente” que, de acordo com este artigo publicado no DN em 2010, resultou no encerramento de 40% dos restaurantes chineses no nosso país. Os consumidores ficaram horrorizados com as filmagens e fotografias de carne-mistério mal congelada e de superfícies sujas que foram divulgadas no âmbito desta operação. Naquilo que só pode ser descrito como um circo mediático, esta inspecção deixou marcas profundas e irreversíveis na confiança que os portugueses depositavam nos restaurantes chineses e, em particular, nos padrões de higiene e segurança alimentar neles praticados.

Curiosamente, esta demonização do chop suey (e dos molhos minados com MSG e do crepe e do arroz chau chau com fiambre e ervilhas) coincidiu com o aumento de popularidade de um determinado conceito de sushi que, por sua vez, deu origem ao conceito do buffet asiático. Para todas as carteiras, gostos e ocasiões, o panorama da comida dita asiática no Portugal pós-ASAE transformou-se num universo esquisito: tapetes rolantes em centros comerciais suburbanos servem arroz peganhento com salmão descongelado, intercalado com crepes fritos e tiras de galinha com amêndoa, coexistindo com outra realidade, nas artérias das grandes cidades e em estabelecimentos mais upscale, onde encontramos um sushi que ignora totalmente a tradição japonesa, pertencente à facção mais colorida e tropical (usamos adjectivos diplomáticos) do sushi brasileiro – vide Confrarias, Olivier Yakuza, Sushi Café, Origami e afins.

Face a esta tendência, os cerca de 60% de restaurantes chineses que sobreviveram à Operação Oriente não tiveram outro remédio que não sujeitarem-se a um rebranding e reabrir como estabelecimento “japonês” ou “asiático”, num fenómeno deprimente a que no Miudezas gostamos de apelidar de the birth of the sushinês.

Sushinês

Sushinês

Já os poucos restaurantes chineses genuínos permaneceram discreta e serenamente alheios a esta convulsão, e continuaram a servir uma gastronomia mais genuína à clientela conhecedora e entusiasta que sempre os frequentou (incluindo clientes das comunidades chinesa e macaense). Falamos no saudoso Zhu Shan da Rua Luís de Camões em Alcântara, cuja gerência abandonou o nosso país recentemente rumo à terra-mãe. E no Little Singapore em Cascais, que deixa muitas saudades do tofu sambal e da sopa wan tan perfeita. E no restaurante Muito Bom na Praça de Espanha, que continua a deliciar uma clientela predominantemente chinesa, bem como clientes vegetarianos e vegan que não se importam que tudo saiba ao mesmo molho com uma pitada de canela. E no Fu Jian em Carnaxide, onde encontramos especialidades do sul da China. E, por último, nos badalados Hong Kong Grande Palácio (Pascoal de Melo, em frente à Portugália), Yum Cha Garden (Oeiras) e no mais inacessível Estoril Mandarim, sobre os quais já muito se escreveu.

Considerando o crescimento visível da comunidade chinesa no nosso país nos últimos anos, bem como a relação histórica entre Portugal e a China via Macau e não só, a oferta de bons restaurantes chineses na capital é absurdamente reduzida; isto é, de estabelecimentos com as devidas licenças, certificados e legitimidade para operar como tal. Restaurantes cuja qualidade e consistência provocam nos clientes uma reacção de amnésia, que elimina quaisquer vestígios traumatizantes da “Operação Oriente”.

A escassez destes estabelecimentos, aliada ao low-profile daqueles poucos que se mantiveram abertos, e sobretudo ao aumento expressivo dos preços praticados em alguns dos restaurantes que referimos acima (Hong Kong, Yum Cha) na sequência de artigos elogiosos publicados na Time Out e derivados, fez com que se tenha verificado um fenómeno paradoxal, que levanta muitas questões sobre o estado de (des)afinação da consciência e da memória dos clientes portugueses: a aceitação e celebração dos “restaurantes” clandestinos em Lisboa, no eixo Martim Moniz-Intendente.

Para muitos dos apreciadores mais recentes da gastronomia chinesa, estas salas de jantar de residências particulares (?) constituem a experiência mais fidedigna e acessível daquilo que consideram ser the real deal, apimentada pelo facto de se tratar de um fenómeno cada vez menos secreto. A verdade é que sim, trata-se de uma experiência a anos-luz do combinado 5 com crepe, e nestas salas conseguimos encontrar dezenas de pratos e especialidades que nem sequer estão disponíveis nos restaurantes mais caros que referimos acima. De realçar também a existência uma maior diversidade a nível de pratos vegetarianos, em teoria – na prática, não pomos as mãos no fogo, sendo provável que no decorrer do processo de confecção sejam regados com um caldo à base de galinha, ou até cozinhados no mesmo wok onde 5 minutos antes foram fritas umas línguas de pato ou umas tripas.

Ma po tofu e pak choy: vegetariano, em princípio.

Ma po tofu e pak choy: vegetariano, em princípio.

A questão essencial que queremos colocar é a seguinte: se existe uma procura crescente de gastronomia chinesa tradicional a preços mais acessíveis por parte dos consumidores, porque é que as famílias que detêm estes espaços não procuram sair da clandestinidade?

Damos como exemplo duas destas salas na Rua do Benformoso, paralela à Rua da Palma. Existem 2 salas clandestinas em 2 números ímpares, do mesmo lado da rua, ambas situadas num 2º andar — sendo que não existe margem de comparação entre o nº 43 e o nº 69. Ambos têm ementas muito semelhantes, mas recomendamos o primeiro e repudiamos o segundo. O nº 43 serve pratos caseiros com ingredientes identificáveis: a título de exemplo e com base na refeição mais recente que lá fizemos, temos o ma po tofu, picante q.b., com o tofu sedoso e bem temperado; sopa (grande, para partilhar) de tomate e ovo, muito equilibrada, pontuada com coentros frescos; sopa de bola de peixe de confecção curiosa, diferente da versão clássica com caldo avinagrado mas não obstante muito saborosa, com ovo e pedaços de choco; couve pak choy salteada e não empapada em óleo de sésamo e alho; noodles de feijão e almôndegas de vaca servidas em caldo.

mapo_tofu pak_choy noodles_feijao

Já o nº 69 serve sopas derivadas de água de lavar pratos; vegetais salteados de qualidade decente; e uns muito duvidosos dumplings de “galinha”, dumplings sobre os quais nos tentámos convencer que se tratava de um engano e que nos tinham servido, na realidade, dumplings de porco: nunca ficámos tão horrorizados como no momento em que recebemos a conta e nos apercebemos pelo preço que tínhamos, de facto, consumido carne-mistério num invólucro de massa esverdeada.

dumplings

The horror, the horror.

The horror, the horror.

O serviço em ambas as casas é cordial e despachado, contrastando com o atendimento estilo generalissimo praticado pelas senhoras do Hong Kong Grande Palácio. As casas de banho são um pesadelo comum a todos os clandestinos que frequentámos: são, efectivamente, os WC das casas onde operam estas salas de jantar abertas ao público, pelo que mesmo que já se tenha acabado o sabão para as mãos e as toalhas de papel, é garantido que vamos encontrar objectos como escovas de dentes e corta-unhas. Apesar disto, o nível de limpeza, arrumação e higiene da sala de jantar do nº 43 é incomparavelmente superior ao do nº 69 (sobre esta questão, convém sublinhar que somos os primeiros a reconhecer as diferenças culturais entre o Ocidente e a China, no que diz respeito aos hábitos de asseio à mesa – contudo, continuamos a preferir gozar o nosso jantar numa mesa sem vestígios de refeições anteriores). Neste aspecto, o nº 43 fica também a anos-luz de outra sala de jantar, conhecida como o  “centro de apoio a estudantes Erasmus”, no Largo da Severa.

Com a reabilitação urbana do eixo Martim Moniz-Mouraria-Intendente e a celebração (que já tardava) desta zona como bastião do multiculturalismo na capital, seria muito interessante que a CML, através de plataformas como o programa aimouraria, criasse condições para que as famílias que exploram negócios de restauração / confecção pudessem exercer esta actividade com toda a legitimidade, promovendo desta forma a integração através do empreendedorismo e, acima de tudo, a aproximação entre comunidades. Não vale sequer a pena citar o exemplo do Mercado-Fusão, que é constrangedor de tão white-washed, tratando-se de um projecto que ficou muito aquém das expectativas: na realidade, não é mais do que um food-court a céu aberto que não representa, nem de perto nem de longe, a riqueza multicultural desta zona de Lisboa.

Mercado de fusão?

Mercado de fusão?

Face ao exposto, acreditamos que há uma enorme lacuna na restauração em Portugal: estabelecimentos chineses tradicionais e genuínos com preços abaixo dos 15 euros por cabeça. A gastronomia chinesa tem uma tradição milenar, riquíssima e extremamente diversificada face à imensidão do território, e merece ser divulgada na sua forma mais autêntica e menos ocidentalizada. Nesse sentido, e para quem quiser saber mais sobre como e o que é que se come na China, recomendamos os livros da britânica Fuschia Dunlop (em particular este) e a deslumbrante série Bite of China, disponível no Youtube com legendas num inglês macarrónico mas perfeitamente inteligível.

Temos consciência de que continuaremos a frequentar o nº 43 e a desbravar a vasta ementa de pratos tradicionais em oferta. Contudo, preferíamos fazê-lo num ambiente legítimo e controlado, onde (queremos acreditar) não houvesse espaço para dúvidas relativamente a questões não só de higiene e segurança alimentar, mas sobretudo no que que concerne o respeito pelos direitos e a salvaguarda de condições dignas e dentro da lei para quem lá trabalha. No Miudezas, gostamos sempre de saber a história e a proveniência daquilo que comemos — para evitar indigestões.

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Lira d’Ouro: tão longe e tão perto

Numa era em que estabelecimentos tradicionais que servem boa comida portuguesa escasseiam, para dar lugar à cozinha global mais indistinta e de qualidade questionável (kebabs, pizzas, hamburgers, sushinês, comida de fusão), é sempre surpreendente quando vamos a um restaurante e ficamos com a impressão de que estamos a comer em casa da nossa avó. Não só pela qualidade aconchegante e familiar, mas também porque nos é servida comida tradicional portuguesa confeccionada com critério e dedicação.

Ementa

Assim é o restaurante Lira d’Ouro em Lisboa, situado numa transversal da Rua da Escola Politécnica, mais precisamente no nº 10 da Rua Nova de S. Mamede, em frente ao largo da igreja. Sendo este estabelecimento já conhecido por uma das metades do Miudezas (que recorda e recomenda o arroz de rim ao almoço), chegámos para jantar por volta das 21h a uma quarta-feira, e deparámo-nos com uma ampla sala de jantar completamente vazia. O que não é totalmente de estranhar, tendo em conta a localização desta casa que aqui se encontra discretamente encurralada desde os anos 60, entre o Salitre, o Príncipe Real e o Rato. Trata-se claramente de uma zona que vive e funciona sobretudo no horário de expediente, sendo que a actividade dos restaurantes da zona se concentra sobretudo no serviço de almoço. De fundo o som do Guimarães – Braga para a taça a ecoar pela sala rectangular, transmitido numa televisão que era suficientemente grande para nos levar a recomendar o Lira d’Ouro a quem gosta de ver futebol à refeição (facção não-fumadores).

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Consta que Alexandre O’Neill foi frequentador assíduo do Lira d’Ouro e é fácil perceber porquê, mesmo com o passar dos anos. Para além da cordialidade comedida dos empregados, o ambiente destaca-se por ser discreto e pacato, num espaço físico simples e de assinalável bom gosto. O Lira d’Ouro mantém intactos traços originais como a porta de madeira antiga, as cadeiras com as costas de madeira do tipo escola primária, balcão de mármore, etc. As ementas do dia continuam a ser redigidas na máquina de escrever.

Canja

Começámos por uma canja de galinha que cumpria todos os preceitos a nível de sabor, textura, temperatura, quantidade de miudezas, e presença de uma folha de hortelã para cortar a (pouca) gordura. De seguida, optámos pelas ovas de pescada cozida com batatas e legumes e por uma dose de iscas com elas.  As ovas não eram as melhores e mais frescas que provámos mas estavam bem cozidas; já os acompanhamentos estavam excelentes, com especial destaque para as batatas cozidas. É facil esquecer o potencial de uma batata de boa qualidade, com o tempero certo e o tempo de cozedura perfeito, mas ficámos muito felizes ao ser relembrados a cada garfada. O vinho branco a acompanhar era decente e honesto, e muito apetecível tendo em conta o preço. As iscas passaram o teste do Miudezas: cortadas bem fininhas e com batatas fritas às rodelas ainda mais finas, regadas com um molho rico e muito saboroso. Rematámos a refeição com um leite de creme caseiro, queimado na hora como dita a regra, que estava muito bom.

Em suma, na Casa Lira d’Ouro continuamos a encontrar tudo no sítio: serviço e refeições de qualidade inquestionável, pratos deliciosos e sem invenções, como em casa da nossa avó. Dificilmente haverá na zona outro sítio de comida tradicional portuguesa em que a qualidade seja tão consistente e a preços tão baixos: pela refeição acima descrita, pagámos menos de 9 euros por pessoa. Deixamos a recomendação a quem quiser jantar bem antes ou depois de uma sessão na Cinemateca,ou simplesmente a quem estiver à procura de uma óptima refeição num ambiente de outros tempos, a contrastar com o ambiente frenético de alguns restaurantes mais movimentados nas zonas vizinhas. Encerra aos Domingos.

Liradouro11

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It’s the end of burger world as we know it.

Se já está na Internet é porque é verdade.

O Honorato foi comprado pelo grupo Multifood S.A. (responsáveis pela cadeia Vitaminas).

Nunca pensámos ter de googlar as palavras “tombstone generator“, mas fomos obrigados.

tombstone

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