Monthly Archives: Março 2013

Miudezas na estrada I: Sara Barracoa, Famalicão

Na nossa memória desde uma refeição inesquecível em 2006, o restaurante Sara (mais conhecido como Sara Barracoa), levou-nos a Famalicão depois de um fim de semana de inverno passado em Guimarães, onde descobrimos a Adega dos Caquinhos e matámos saudades dos croissants mistos prensados com manteiga, entre outras maravilhas da pastelaria que só existem do Douro para cima.

sara_balcão

Como tínhamos tempo e nos apetecia passear, decidimos fazer os 33 kms que separam Guimarães de Famalicão não por uma SCUT, mas pela estrada nacional. E assim ficámos a saber da existência de localidades como Ronfe, Mugege, Joane, Vermoim e Brufe, onde em tempos terá havido uma indústria têxtil significativa e hoje em dia existem apenas detritos dessa era, que contribuem para uma paisagem algo fantasmagórica: demasiadas bombas de gasolina para a pouca afluência de carros, algumas fábricas desactivadas e outras em ruínas, restaurantes e demais estabelecimentos comerciais que fecharam portas para não mais reabrir.

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Entrámos no caos urbanístico que caracteriza Famalicão e de imediato rumámos ao centro, na esperança de mais um almoço memorável no Sara Barracoa. Abrimos as portas de madeira da casa de granito onde se situa o restaurante e, imediatamente, confirmámos que tudo se mantém igual desde a nossa última visita. Existe, aliás, uma aura de história e familiaridade que nos dá a ideia que houve coisas que nunca mudaram nesta casa, que abriu há mais de 170 anos, e foi frequentada em tempos por Camilo Castelo Branco. A Sara Barracoa esteve sempre nas mãos da mesma família e neste vídeo, o actual proprietário David Ferreira Dias (bisneto do fundador) explica a origem do nome do estabelecimento enquanto casa de ferrador, onde viajantes vinham mudar as ferraduras dos cavalos, e a transição gradual para casa de pasto. Como seria de esperar, os pratos servidos na Sara Barracoa respeitam a tradição local, bem como o livro de receitas da família.

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Às 14h00, o restaurante já só tinha poucas mesas vagas na primeira das duas salas, sendo que a que fica na parte de trás do restaurante (afastada da entrada, mais acolhedora e com bastante mais luz natural) estava completamente cheia. Sentámo-nos e, depois de uma recepção afável por parte da mulher do Sr. David, o dilema com que nos deparámos consistia em optar por revisitar as especialidades que já tínhamos provado (vitela e rojões), ou experimentar pratos novos. Olhámos em redor para ver o que se comia e optámos pelo cabrito e pelos filetes de pescada. Por muito que estivéssemos ansiosos por voltar a provar a comida deste sítio, havia pormenores demasiado importantes para serem ignorados e que exigiam a nossa atenção: a perspectiva completamente errada de uma ombreira de porta (inspiração directa para o set design do filme Beetlejuice?), os quadros desalinhados ou as pipas de vinho tinto e branco atrás do balcão.

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Os filetes vieram numa travessa, ladeados por dois pastéis (lá em cima chamam-se bolos) de bacalhau. Em comparação com os restantes acompanhamentos – uma salada russa com maionese caseira  – os bolinhos de bacalhau acabaram por parecer uma escolha pouco habitual e quase questionável (o bacalhau é amigo da pescada?), especialmente porque estavam frios, contrastando com a temperatura dos filetes. Já os protagonistas deste prato estavam acabados de fritar, estaladiços e com um travo a sumo de limão, capazes de fazer frente aos melhores filetes que provámos tais como os do ARVC em Lisboa, d’A Cabana na Zambujeira, e do Maria Moita em Leixões.

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De seguida veio o cabrito, uma dose avantajada que acabámos com algum esforço, muita gula e total satisfação. Apesar de estar muito bem assado, no tradicional forno a lenha da Sara Barracoa, o cabrito não impressionou tanto como os filetes nem como a vitela que lá tinhamos comido há uns anos (das carne mais tenras que alguma vez provámos). A acompanhar, batatas assadas e um arroz solto e altamente saboroso, juntamente com uma salada e uns deliciosos grelos salteados – na Sara Barracoa, não se poupa na quantidade nem na qualidade dos acompanhamentos.

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A acompanhar todas as refeições que fazemos nestas paragens está o vinho verde tinto, servido em malgas: de cor sanguínea e a remeter para cenários do Velho Testamento, a efervescência e a acidez deste vinho poderá causar alguma estranheza a princípio (e alguma azia aos estômagos mais sensíveis), mas sabemos que não existe outra bebida possível para acompanhar a comida minhota, seja vitela, rojões ou papas de sarrabulho.

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No fim, ainda houve espaço para um delicioso e inatacável pudim de ovos. Foi um verdadeiro banquete, que em nada beliscou as boas recordações que tínhamos da Sara Barracoa, e mal podemos esperar pela próxima ocasião para reavivarmos a memória de como se come (muito) bem nesta zona do país.

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À mesa debaixo da ponte: Retiro do Chefe Costa, Lisboa

Fomos descobrir o Retiro do Chefe Costa há alguns dias, motivados por uma óptima crítica do José Quitério no jornal Expresso e pela vontade de desbravar um recanto de Lisboa isolado, qual oásis perdido entre a Av. de Ceuta e o acesso à Ponte sobre o Tejo. Separada do acesso à ponte por um pequeno muro, à nossa direita encontramos a Estrada do Alvito e o Retiro do Chefe Costa.

O sentimento imediato assim que vimos a lista dos pratos do dia foi de arrependimento – por não termos sido sociáveis e desafiado pelo menos mais dois amigos a jantarem connosco para, dessa forma, podermos provar mais iguarias. Sabíamos que as doses eram grandes e mais que suficientes para partilhar por duas pessoas com fome e, em tempos de contenção, não pudemos largar mais uma nota e dar azo ao apetite e à curiosidade, pelo que tivemos de nos cingir a um só prato. O senhor que nos atendeu recomendou de imediato o signature dish do Chefe Costa, o esparguete com marisco, bem como o vinho branco da casa. Mas enquanto esperávamos, suspirámos pelo cabrito, pelo arroz de tamboril e por outros jantares promissores.

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Esparguete com marisco.

Contrariando a crença de que as massas mais finas (linguine, spaghetti) não devem ser utilizadas em ensopados e caldeiradas, por correrem o risco de overcooking e de ficarem gradualmente com uma textura mole e empapada, este esparguete escrito e cozinhado à portuguesa foi a escolha mais acertada. O esparguete é servido numa tigela de barro e cozinhado num caldo rico e saboroso, à base de generosos pedaços de marisco (camarões, sapateira e amêijoas), pontuados com salsa e coentros q.b. e coberto por duas fatias de broa, ou não vá o cliente precisar de uma dose acrescida de hidratos de carbono para aconchegar o marisco. É um prato simples, eficaz e que nos deixou muito mais satisfeitos do que 95% dos arrozes de marisco que temos provado. A única nota negativa vai para a escolha das amêijoas, de casca preta (no Atlântico não há disso) e com certeza congeladas. O vinho branco, da região do Vale do Tejo, foi outra agradável surpresa: seco, leve e fresquíssimo, regou bem o nosso jantar. A rematar, um leite creme caseiro nota 10.

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Massa-pão.

O espaço tem uma dimensão razoável e pormenores deliciosos, como o inexplicável altar no corredor que conduz às casas de banho (gostámos especialmente do detalhe simétrico das duas garrafas de água vazias); o serviço é afável e despachado. Apesar de ser amplamente descrito como uma marisqueira e restaurante para grupos, o Retiro do Chefe Costa é um bom restaurante de boa comida portuguesa, com óptimos preços: pela refeição acima descrita, que incluiu um couvert à base de pão, boas azeitonas e umas deliciosas ovas em escabeche, mais cafés, pagámos menos de 14 euros por cabeça. Encerra à Segunda-feira.

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Altar mistério.

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A Serra na Cidade: Restaurante O Serrano, Ajuda

O Miudezas anda numa fase particularmente carnívora, pelo que pareceu-nos óbvia a escolha do restaurante O Serrano quando, há uns dias, tivemos de rumar a oeste, mais especificamente até à zona da Ajuda. Mais conhecido por ser o local onde alguns familiares se juntam para um almoço mensal (no dia do cozido, à quarta-feira), O Serrano serve, entre outros pratos, especialidades da Beira Baixa, mais especificamente da junta de freguesia de Orjais, concelho da Covilhã, há mais de 30 anos.

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Aproveitamos o facto de O Serrano ter um site acessível, honesto e informativo para marcar a estreia dos posts mais resumidos no Miudezas. Não há nada a acrescentar e tudo a confirmar: aqui come-se realmente muito bem, em doses muito generosas e a preços muito convidativos. Os produtos são frescos e regionais, e o serviço é sem pressas, familiar e muito simpático. A decoração não sofreu grandes alterações desde a abertura – gostamos particularmente da sinalética usada nas casas de banhos.

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Optámos por um prato do dia e por uma das especialidades da casa: ervilhas com dois ovos bem escalfados (leia-se mal passados, com a gema bem runny como convém), e o clássico tacho de arroz de carqueja para partilhar. As ervilhas estavam apuradíssimas, com um molho rico e adocicado q.b., sendo acompanhadas por tiras finas de presunto de excelente qualidade, em vez dos habituais cubos de toucinho pouco apreciados pelas nossas artérias.

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O arroz de carqueja é um prato típico da Beira Baixa, reconfortante e com um aroma muito característico – uma espécie de arroz guisado leve e anisado, com entrecosto e morcela; estes sabores são elevados ao supra sumo da experiência serrana através da fragrância doce da carqueja, que é utilizada não só para temperar a carne como também na água onde o arroz é cozinhado. Não conhecemos outro sítio em Lisboa (nem a menos de 1500 metros de altitude) que sirva este prato, mas aceitamos sugestões.

O restaurante encerra ao Domingo e à Segunda-feira, e está temporariamente sem poder aceitar pagamento por cartão (queremos acreditar que é temporário, a gerência fez questão de espalhar vários avisos pelas paredes); mas há uma caixa MB a poucos metros de distância, descendo a Calçada do lado direito. Já referimos a dimensão das doses mas, a título ilustrativo, podemos confirmar que uma dose de arroz de carqueja e meia dose de ervilhas dão para alimentar 4 pessoas que gostam de repetir, pela módica quantia de 19,50. Com vinho da casa, água, sobremesas e café, é pouco provável que o preço de uma refeição n’O Serrano exceda os 10 euros por cabeça. Restam dúvidas sobre onde almoçar esta semana?

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Osteria: il nuovo buraquinho

Como já deverão ter lido, a Osteria é o mais recente projecto das responsáveis pelo restaurante Pharmacia e pelas Taberna e Petiscaria Ideais. A Osteria tem direito não só a um cognome (Cucina di amici, leia-se “cozinha de amigos”), mas também a um motto de contornos quase religiosos: “Cremos que a cozinha é única e indivisível”. Perante esta afirmação tão convicta, torna-se curiosa a utilização do adjectivo “indivisível” uma vez que, assim que nos sentamos, somos presenteados com o monólogo comum aos já 4 restaurantes da mesma gerência: sobre como o conceito é “petiscar”, que todos os pratos “devem ser partilhados” e que se recomenda um ratio de 1 dose e meia por pessoa. Acreditamos, aliás, cremos que o significado desta máxima prende-se com a defesa de uma cozinha íntegra, sem invenções nem contágio; mas acreditamos ainda mais em estabelecimentos que dispensam manifestos ou bulas explicativas e deixam os pratos falar por si.
Fomos pela primeira vez à Osteria há cerca de 2 meses, poucas semanas após a abertura. Conseguimos a proeza de reservar uma das poucas mesas com espaço suficiente para 4 pessoas, no turno das 20h00 (foi nos pedido que vagássemos a mesa às 22h00, o que nos parece razoável). E regressámos recentemente para um segundo jantar, no mesmo horário e no mesmo dia da semana da primeira visita, desta vez sem reserva, tendo ficado numa das mesas mais pequenas.
Boas entradas.

Boas entradas.

Situada na Rua das Madres na Madragoa, muito próximo da Taberna e da Petiscaria Ideiais, a Osteria surge num espaço minúsculo, com capacidade para não mais do que 25 pessoas. A sala está separada da cozinha apenas por um balcão, e a decoração divide-se entre as paredes italianas (cobertas de molduras com dizeres e fotografias, bandeiras da Squadra Azzurra, etc.), e as mesas e cadeiras (portuguesas?) recicladas, oriundas de salas de aula, refeitórios e tascas, e propositadamente desemparelhadas. Apesar de ter ficado engraçado e de reconhecermos a intenção de se criar um ambiente descontraído e cosy, o conforto é relativo. As cadeiras não são cómodas, o espaço reduzido nas mesas obriga a manobras de Tetris quando os pratos e as bebidas começam a chegar, e os ganchos para pendurar as carteiras e os casacos são manifestamente insuficientes. Tendo em conta que, depois das obras, já não faz sentido referirmo-nos à Toscana como o “buraquinho”, achamos que a Osteria é uma forte candidata a herdar este epíteto.
Osteria

Casa cheia.

Ainda sobre a questão da comodidade: à semelhança da Taberna e da Petiscaria (e do estabelecimento formerly known as buraquinho), a Osteria não aceita pagamento por cartão, com a agravante de o Multibanco mais próximo ficar numa CGD na D. Carlos I, quase a chegar ao IADE. Uma nota aos estabelecimentos que insistem nesta prática: é indecente obrigar um cliente a deslocar-se durante quase 10 minutos, tendo de desbravar caminho entre pré-adolescentes que consomem baldes de álcool barato à porta de smart shops e de 7-11’s, ainda para mais com a agravante de as empregadas exigirem que se deixe um documento de identificação no restaurante enquanto se vai levantar dinheiro. Se o consumo expectável por pessoa ultrapassa os 15 euros, como é o caso na Osteria, não há desculpa para não se providenciar a forma de pagamento mais cómoda e imediata.

Pondo de parte os pormenores acima descritos (que muito pesam na avaliação do Miudezas de toda e qualquer refeição fora de casa), queremos deixar uma nota positiva para o atendimento simpático, e para a oferta de uma pequena entrada acompanhada por um welcome drink (bruschetta com tomate e azeite e um copo de lambruschino) em vez da imposição de um couvert. A carta é extensa e variada e muito bem executada por Chiara Ferro; as sobremesas são da autoria da sua conterrânea Michela Altieri.

Almôndegas com puré.

Almôndegas com puré.

Fizemos questão de experimentar pratos diferentes nas duas visitas. Gostámos muito dos pratos de carne: fígado a veneziana com polenta, tudo regado com um molho apuradíssimo, e o fígado cortado bem fino; dos scaloppine de frango em escabeche, e das almôndegas de vitela com molho de tomate e puré de batata. Acompanhámos com os gnocchi caseiros, que são muito bons, e com um prato leve mas saboroso de legumes salteados com pinhões e manjericão (courgette, cenoura, feijão verde). Ficámos menos entusiasmados com os pratos de marisco: um risotto de camarão delicioso e rico contrastou fortemente com um prato de couscous com marisco variado, com mão pesada no uso da canela, uma criação adocicada e desconcertante que optámos por nem terminar. Mais infeliz foi o risotto de noz e queijo taleggio, um monstro lácteo que atinge a proeza de ser simultaneamente desprovido de sabor e enjoativo de tão pesado, para além de que estava longe de estar no ponto. Em linha com os contrastes já referidos, o panorama das sobremesas também nos deixou divididos: adorámos a sobremesa de pêra e ricotta, mas ficámos desiludidos com a tarte de limão e pinhões. Também incompreensível é o facto de o café ser Nespresso e de não haver uma macchina como deve ser: fica a sugestão de um bom uso que a gerência da Osteria poderá dar aos euros poupados até à data em comissões de pagamentos com cartão.

Risotto de camarão.

Risotto de camarão e sortido de cadeiras.

Lisboa precisava de um restaurante italiano tradicional com preços não-proibitivos, e a Osteria responde parcialmente a essa necessidade. Sentimos que há muito espaço para melhorar e temos vontade de regressar uma terceira vez para experimentar mais pratos, nomeadamente a massa seca com brócolos e salsicha caseira, o coelho em conserva com ervas e o carpaccio de língua.

Vediamo se a Osteria tomará em conta o feedback recebido nos primeiros meses de operação, e se haverá receptividade para fazer os pequenos ajustes que poderão tornar este restaurante num dos espaços mais acolhedores e originais para bem comer na capital.

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