Osteria: il nuovo buraquinho

Como já deverão ter lido, a Osteria é o mais recente projecto das responsáveis pelo restaurante Pharmacia e pelas Taberna e Petiscaria Ideais. A Osteria tem direito não só a um cognome (Cucina di amici, leia-se “cozinha de amigos”), mas também a um motto de contornos quase religiosos: “Cremos que a cozinha é única e indivisível”. Perante esta afirmação tão convicta, torna-se curiosa a utilização do adjectivo “indivisível” uma vez que, assim que nos sentamos, somos presenteados com o monólogo comum aos já 4 restaurantes da mesma gerência: sobre como o conceito é “petiscar”, que todos os pratos “devem ser partilhados” e que se recomenda um ratio de 1 dose e meia por pessoa. Acreditamos, aliás, cremos que o significado desta máxima prende-se com a defesa de uma cozinha íntegra, sem invenções nem contágio; mas acreditamos ainda mais em estabelecimentos que dispensam manifestos ou bulas explicativas e deixam os pratos falar por si.
Fomos pela primeira vez à Osteria há cerca de 2 meses, poucas semanas após a abertura. Conseguimos a proeza de reservar uma das poucas mesas com espaço suficiente para 4 pessoas, no turno das 20h00 (foi nos pedido que vagássemos a mesa às 22h00, o que nos parece razoável). E regressámos recentemente para um segundo jantar, no mesmo horário e no mesmo dia da semana da primeira visita, desta vez sem reserva, tendo ficado numa das mesas mais pequenas.
Boas entradas.

Boas entradas.

Situada na Rua das Madres na Madragoa, muito próximo da Taberna e da Petiscaria Ideiais, a Osteria surge num espaço minúsculo, com capacidade para não mais do que 25 pessoas. A sala está separada da cozinha apenas por um balcão, e a decoração divide-se entre as paredes italianas (cobertas de molduras com dizeres e fotografias, bandeiras da Squadra Azzurra, etc.), e as mesas e cadeiras (portuguesas?) recicladas, oriundas de salas de aula, refeitórios e tascas, e propositadamente desemparelhadas. Apesar de ter ficado engraçado e de reconhecermos a intenção de se criar um ambiente descontraído e cosy, o conforto é relativo. As cadeiras não são cómodas, o espaço reduzido nas mesas obriga a manobras de Tetris quando os pratos e as bebidas começam a chegar, e os ganchos para pendurar as carteiras e os casacos são manifestamente insuficientes. Tendo em conta que, depois das obras, já não faz sentido referirmo-nos à Toscana como o “buraquinho”, achamos que a Osteria é uma forte candidata a herdar este epíteto.
Osteria

Casa cheia.

Ainda sobre a questão da comodidade: à semelhança da Taberna e da Petiscaria (e do estabelecimento formerly known as buraquinho), a Osteria não aceita pagamento por cartão, com a agravante de o Multibanco mais próximo ficar numa CGD na D. Carlos I, quase a chegar ao IADE. Uma nota aos estabelecimentos que insistem nesta prática: é indecente obrigar um cliente a deslocar-se durante quase 10 minutos, tendo de desbravar caminho entre pré-adolescentes que consomem baldes de álcool barato à porta de smart shops e de 7-11’s, ainda para mais com a agravante de as empregadas exigirem que se deixe um documento de identificação no restaurante enquanto se vai levantar dinheiro. Se o consumo expectável por pessoa ultrapassa os 15 euros, como é o caso na Osteria, não há desculpa para não se providenciar a forma de pagamento mais cómoda e imediata.

Pondo de parte os pormenores acima descritos (que muito pesam na avaliação do Miudezas de toda e qualquer refeição fora de casa), queremos deixar uma nota positiva para o atendimento simpático, e para a oferta de uma pequena entrada acompanhada por um welcome drink (bruschetta com tomate e azeite e um copo de lambruschino) em vez da imposição de um couvert. A carta é extensa e variada e muito bem executada por Chiara Ferro; as sobremesas são da autoria da sua conterrânea Michela Altieri.

Almôndegas com puré.

Almôndegas com puré.

Fizemos questão de experimentar pratos diferentes nas duas visitas. Gostámos muito dos pratos de carne: fígado a veneziana com polenta, tudo regado com um molho apuradíssimo, e o fígado cortado bem fino; dos scaloppine de frango em escabeche, e das almôndegas de vitela com molho de tomate e puré de batata. Acompanhámos com os gnocchi caseiros, que são muito bons, e com um prato leve mas saboroso de legumes salteados com pinhões e manjericão (courgette, cenoura, feijão verde). Ficámos menos entusiasmados com os pratos de marisco: um risotto de camarão delicioso e rico contrastou fortemente com um prato de couscous com marisco variado, com mão pesada no uso da canela, uma criação adocicada e desconcertante que optámos por nem terminar. Mais infeliz foi o risotto de noz e queijo taleggio, um monstro lácteo que atinge a proeza de ser simultaneamente desprovido de sabor e enjoativo de tão pesado, para além de que estava longe de estar no ponto. Em linha com os contrastes já referidos, o panorama das sobremesas também nos deixou divididos: adorámos a sobremesa de pêra e ricotta, mas ficámos desiludidos com a tarte de limão e pinhões. Também incompreensível é o facto de o café ser Nespresso e de não haver uma macchina como deve ser: fica a sugestão de um bom uso que a gerência da Osteria poderá dar aos euros poupados até à data em comissões de pagamentos com cartão.

Risotto de camarão.

Risotto de camarão e sortido de cadeiras.

Lisboa precisava de um restaurante italiano tradicional com preços não-proibitivos, e a Osteria responde parcialmente a essa necessidade. Sentimos que há muito espaço para melhorar e temos vontade de regressar uma terceira vez para experimentar mais pratos, nomeadamente a massa seca com brócolos e salsicha caseira, o coelho em conserva com ervas e o carpaccio de língua.

Vediamo se a Osteria tomará em conta o feedback recebido nos primeiros meses de operação, e se haverá receptividade para fazer os pequenos ajustes que poderão tornar este restaurante num dos espaços mais acolhedores e originais para bem comer na capital.

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