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Quand la Chine s’éveillera, as nossas barrigas vão agradecer: Tian Yi Jiao, Lisboa

Quando há uns meses escrevemos sobre a falta de restaurantes chineses legítimos e legais (por legais entenda-se sem serem clandestinos), estávamos longe de imaginar que já existia na capital um estabelecimento que viria a responder a todas as nossas preces. Aberto há 7 meses e especializado em pratos da província de Zhejiang (foi o que percebemos), conforme esclarecido pela simpática empregada que nos serviu, o Tian Yi Jiao é seguramente o melhor e mais genuíno restaurante chinês na capital.

Welcome to Tian Yi Jiao

Welcome to Tian Yi Jiao

Descobrimos este shangri-la totalmente por acaso, durante uma caminhada pela zona de Arroios num dia particularmente ventoso, em que as ruas por trás da Almirante Reis pareciam um bocadinho mais abrigadas do que a avenida. Se a ementa colocada na janela auspiciava um óptimo jantar, a visão de abundância com que nos deparámos quando entrámos no restaurante foi ainda mais esclarecedora: três mesas redondas com capacidade para 10 pessoas cada, totalmente repletas de iguarias que iam desde as ostras até pratinhos de edamame. 10 minutos depois de entrarmos, chegaram os sortudos destinatários deste banquete: um grupo de cidadãos chineses, distribuídos pelas três mesas em grupos de homens, mulheres e crianças. Só não ficámos a suspirar pelas iguarias de entrada e pela sopa de noodles e ovos estrelados (estrelados, não escalfados) servida pelas três mesas, porque o nosso próprio jantar foi, sem sombra de dúvida, dos mais deliciosos e memoráveis que alguma vez tivemos em Lisboa.

Good things come to those who wait.

Good things come to those who wait.

Começámos por pedir sopa de bola de peixe, salada de tofu e ovo preto e uma entrada de algas marinhas em molho Sichuan; a simpática empregada que nos serviu indicou de imediato que não havia algas naquele dia. Aproveitámos a disponibilidade da senhora (muito prestável, a contrastar positivamente com o serviço acelerado do vizinho Hong Kong Grande Palácio) para pedir que nos sugerisse uma alternativa, e não hesitámos em encomendar as duas recomendações: crepes de peixe Wenzhou e massa de arroz “rodela salteada” (sic). Em termos do tamanho das porções, a quantidade de comida pedida teria sido suficiente para alimentar três pessoas com espaço na barriga. A qualidade dos quatro pratos era impressionante, e será difícil não entrar num registo food-porn / nostálgico-suspirante ao recordar a experiência:

Massa de arroz rodela salteada – a Primavera chinesa num prato, em que a textura fresca e trincável dos vegetais (ong choy / morning glory, cogumelos shitake, cenouras, alho francês e cebolinho) contrasta com suaves rodelas de massa de arroz, pontuados por ovo mexido e um delicioso molho à base de carne de porco. Este é um dos pratos vegetarianos “em princípio”, que ilustra bem o cuidado que os clientes vegetarianos deverão ter antes de encomendar seja o que for num restaurante chinês.

Massa redonda

Massa redonda debaixo de lovely greens.

Salada de tofu e ovo preto – o momento alto (e frio) da refeição, onde cubos de tofu de excelente qualidade se encontram com pedaços de ovo preto (century egg), regados por um molho riquíssimo e salgado à base de soja e óleo de sésamo.  O pormenor genial surge na utilização de açúcar granulado (!) sobre o tofu para atingir o contraste perfeito entre salgado/doce e suavidade do tofu /areia crunchy do açúcar. Uma iguaria comovente para o Miudezas, embora alertemos para o facto de o sabor forte e a textura gelatinosa do ovo preto poder não ser fácil para alguns paladares.  

Very delicious.

Very delicious.

Sopa de bola de peixe (dose “pequena”) – servida num pyrex rectangular, com pedaços de peixe e choco (ainda com um bite agradável) a flutuar num caldo avinagrado e picante, pontuado por pimenta preta, cebolinho e alho francês. Uma versão semelhante à disponível no nº 43 da Rua do Benformoso, de confecção from scratch e utilizando produtos totalmente caseiros; embora confessemos preferir a versão mais industrial / guilty pleasure do Fu Jian em Carnaxide, em que os pedaços de choco e peixe são substituídos por “bolas” de peixe feitas com pão chinês recheado por uma salgadíssima e pouco saudável pasta de carne e peixe.

Sopa para um, para três.

Sopa para um, para três.

Crepes de peixe Wenzhou – pequenos e deliciosos crepes de peixe branco desfeito e refeito em pequenas rodelas fatiadas, temperado com gengibre, cebolinho e alho francês, para mergulhar num molho à base de vinagre chinês e soja. Leves e extremamente saborosos.

O encanto do peixe prensado.

O encanto do peixe prensado.

A lotação do restaurante é reduzida (cerca de 40 pessoas), não aceitam pagamento por cartão, e constatámos que também existem pratos mais “inofensivos” disponíveis na ementa: depois do grupo de cidadãos chineses, chegaram ainda quatro jovens que encomendaram noodles tipo chow mein e qualquer coisa na chapa – duas oportunidades desperdiçadas, na nossa opinião, perante a variedade de novos e deliciosos pratos por desbravar na ementa do Tian Yi Jiao.

Face ao impacto desta experiência, temos a certeza de que o Tian Yi Jiao será um dos sítios sobre os quais vamos escrever muitas vezes. O panorama da comida asiática em Lisboa acabou de tornar-se muito mais interessante.

Bucket list para jantares do futuro.

Bucket list para jantares do futuro.

Tian Yi Jiao – Rua António Pedro, 95, Lisboa (nas traseiras do Centro Comercial Portugália – R.I.P.).

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Voltamos já.

jantar

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12 de Maio de 2013 · 14:51

Miudezas na estrada I: Sara Barracoa, Famalicão

Na nossa memória desde uma refeição inesquecível em 2006, o restaurante Sara (mais conhecido como Sara Barracoa), levou-nos a Famalicão depois de um fim de semana de inverno passado em Guimarães, onde descobrimos a Adega dos Caquinhos e matámos saudades dos croissants mistos prensados com manteiga, entre outras maravilhas da pastelaria que só existem do Douro para cima.

sara_balcão

Como tínhamos tempo e nos apetecia passear, decidimos fazer os 33 kms que separam Guimarães de Famalicão não por uma SCUT, mas pela estrada nacional. E assim ficámos a saber da existência de localidades como Ronfe, Mugege, Joane, Vermoim e Brufe, onde em tempos terá havido uma indústria têxtil significativa e hoje em dia existem apenas detritos dessa era, que contribuem para uma paisagem algo fantasmagórica: demasiadas bombas de gasolina para a pouca afluência de carros, algumas fábricas desactivadas e outras em ruínas, restaurantes e demais estabelecimentos comerciais que fecharam portas para não mais reabrir.

sara_sala jantar 3

Entrámos no caos urbanístico que caracteriza Famalicão e de imediato rumámos ao centro, na esperança de mais um almoço memorável no Sara Barracoa. Abrimos as portas de madeira da casa de granito onde se situa o restaurante e, imediatamente, confirmámos que tudo se mantém igual desde a nossa última visita. Existe, aliás, uma aura de história e familiaridade que nos dá a ideia que houve coisas que nunca mudaram nesta casa, que abriu há mais de 170 anos, e foi frequentada em tempos por Camilo Castelo Branco. A Sara Barracoa esteve sempre nas mãos da mesma família e neste vídeo, o actual proprietário David Ferreira Dias (bisneto do fundador) explica a origem do nome do estabelecimento enquanto casa de ferrador, onde viajantes vinham mudar as ferraduras dos cavalos, e a transição gradual para casa de pasto. Como seria de esperar, os pratos servidos na Sara Barracoa respeitam a tradição local, bem como o livro de receitas da família.

sara_balcão1

Às 14h00, o restaurante já só tinha poucas mesas vagas na primeira das duas salas, sendo que a que fica na parte de trás do restaurante (afastada da entrada, mais acolhedora e com bastante mais luz natural) estava completamente cheia. Sentámo-nos e, depois de uma recepção afável por parte da mulher do Sr. David, o dilema com que nos deparámos consistia em optar por revisitar as especialidades que já tínhamos provado (vitela e rojões), ou experimentar pratos novos. Olhámos em redor para ver o que se comia e optámos pelo cabrito e pelos filetes de pescada. Por muito que estivéssemos ansiosos por voltar a provar a comida deste sítio, havia pormenores demasiado importantes para serem ignorados e que exigiam a nossa atenção: a perspectiva completamente errada de uma ombreira de porta (inspiração directa para o set design do filme Beetlejuice?), os quadros desalinhados ou as pipas de vinho tinto e branco atrás do balcão.

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Os filetes vieram numa travessa, ladeados por dois pastéis (lá em cima chamam-se bolos) de bacalhau. Em comparação com os restantes acompanhamentos – uma salada russa com maionese caseira  – os bolinhos de bacalhau acabaram por parecer uma escolha pouco habitual e quase questionável (o bacalhau é amigo da pescada?), especialmente porque estavam frios, contrastando com a temperatura dos filetes. Já os protagonistas deste prato estavam acabados de fritar, estaladiços e com um travo a sumo de limão, capazes de fazer frente aos melhores filetes que provámos tais como os do ARVC em Lisboa, d’A Cabana na Zambujeira, e do Maria Moita em Leixões.

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De seguida veio o cabrito, uma dose avantajada que acabámos com algum esforço, muita gula e total satisfação. Apesar de estar muito bem assado, no tradicional forno a lenha da Sara Barracoa, o cabrito não impressionou tanto como os filetes nem como a vitela que lá tinhamos comido há uns anos (das carne mais tenras que alguma vez provámos). A acompanhar, batatas assadas e um arroz solto e altamente saboroso, juntamente com uma salada e uns deliciosos grelos salteados – na Sara Barracoa, não se poupa na quantidade nem na qualidade dos acompanhamentos.

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A acompanhar todas as refeições que fazemos nestas paragens está o vinho verde tinto, servido em malgas: de cor sanguínea e a remeter para cenários do Velho Testamento, a efervescência e a acidez deste vinho poderá causar alguma estranheza a princípio (e alguma azia aos estômagos mais sensíveis), mas sabemos que não existe outra bebida possível para acompanhar a comida minhota, seja vitela, rojões ou papas de sarrabulho.

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No fim, ainda houve espaço para um delicioso e inatacável pudim de ovos. Foi um verdadeiro banquete, que em nada beliscou as boas recordações que tínhamos da Sara Barracoa, e mal podemos esperar pela próxima ocasião para reavivarmos a memória de como se come (muito) bem nesta zona do país.

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À mesa debaixo da ponte: Retiro do Chefe Costa, Lisboa

Fomos descobrir o Retiro do Chefe Costa há alguns dias, motivados por uma óptima crítica do José Quitério no jornal Expresso e pela vontade de desbravar um recanto de Lisboa isolado, qual oásis perdido entre a Av. de Ceuta e o acesso à Ponte sobre o Tejo. Separada do acesso à ponte por um pequeno muro, à nossa direita encontramos a Estrada do Alvito e o Retiro do Chefe Costa.

O sentimento imediato assim que vimos a lista dos pratos do dia foi de arrependimento – por não termos sido sociáveis e desafiado pelo menos mais dois amigos a jantarem connosco para, dessa forma, podermos provar mais iguarias. Sabíamos que as doses eram grandes e mais que suficientes para partilhar por duas pessoas com fome e, em tempos de contenção, não pudemos largar mais uma nota e dar azo ao apetite e à curiosidade, pelo que tivemos de nos cingir a um só prato. O senhor que nos atendeu recomendou de imediato o signature dish do Chefe Costa, o esparguete com marisco, bem como o vinho branco da casa. Mas enquanto esperávamos, suspirámos pelo cabrito, pelo arroz de tamboril e por outros jantares promissores.

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Esparguete com marisco.

Contrariando a crença de que as massas mais finas (linguine, spaghetti) não devem ser utilizadas em ensopados e caldeiradas, por correrem o risco de overcooking e de ficarem gradualmente com uma textura mole e empapada, este esparguete escrito e cozinhado à portuguesa foi a escolha mais acertada. O esparguete é servido numa tigela de barro e cozinhado num caldo rico e saboroso, à base de generosos pedaços de marisco (camarões, sapateira e amêijoas), pontuados com salsa e coentros q.b. e coberto por duas fatias de broa, ou não vá o cliente precisar de uma dose acrescida de hidratos de carbono para aconchegar o marisco. É um prato simples, eficaz e que nos deixou muito mais satisfeitos do que 95% dos arrozes de marisco que temos provado. A única nota negativa vai para a escolha das amêijoas, de casca preta (no Atlântico não há disso) e com certeza congeladas. O vinho branco, da região do Vale do Tejo, foi outra agradável surpresa: seco, leve e fresquíssimo, regou bem o nosso jantar. A rematar, um leite creme caseiro nota 10.

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Massa-pão.

O espaço tem uma dimensão razoável e pormenores deliciosos, como o inexplicável altar no corredor que conduz às casas de banho (gostámos especialmente do detalhe simétrico das duas garrafas de água vazias); o serviço é afável e despachado. Apesar de ser amplamente descrito como uma marisqueira e restaurante para grupos, o Retiro do Chefe Costa é um bom restaurante de boa comida portuguesa, com óptimos preços: pela refeição acima descrita, que incluiu um couvert à base de pão, boas azeitonas e umas deliciosas ovas em escabeche, mais cafés, pagámos menos de 14 euros por cabeça. Encerra à Segunda-feira.

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Altar mistério.

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A Serra na Cidade: Restaurante O Serrano, Ajuda

O Miudezas anda numa fase particularmente carnívora, pelo que pareceu-nos óbvia a escolha do restaurante O Serrano quando, há uns dias, tivemos de rumar a oeste, mais especificamente até à zona da Ajuda. Mais conhecido por ser o local onde alguns familiares se juntam para um almoço mensal (no dia do cozido, à quarta-feira), O Serrano serve, entre outros pratos, especialidades da Beira Baixa, mais especificamente da junta de freguesia de Orjais, concelho da Covilhã, há mais de 30 anos.

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Aproveitamos o facto de O Serrano ter um site acessível, honesto e informativo para marcar a estreia dos posts mais resumidos no Miudezas. Não há nada a acrescentar e tudo a confirmar: aqui come-se realmente muito bem, em doses muito generosas e a preços muito convidativos. Os produtos são frescos e regionais, e o serviço é sem pressas, familiar e muito simpático. A decoração não sofreu grandes alterações desde a abertura – gostamos particularmente da sinalética usada nas casas de banhos.

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Optámos por um prato do dia e por uma das especialidades da casa: ervilhas com dois ovos bem escalfados (leia-se mal passados, com a gema bem runny como convém), e o clássico tacho de arroz de carqueja para partilhar. As ervilhas estavam apuradíssimas, com um molho rico e adocicado q.b., sendo acompanhadas por tiras finas de presunto de excelente qualidade, em vez dos habituais cubos de toucinho pouco apreciados pelas nossas artérias.

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O arroz de carqueja é um prato típico da Beira Baixa, reconfortante e com um aroma muito característico – uma espécie de arroz guisado leve e anisado, com entrecosto e morcela; estes sabores são elevados ao supra sumo da experiência serrana através da fragrância doce da carqueja, que é utilizada não só para temperar a carne como também na água onde o arroz é cozinhado. Não conhecemos outro sítio em Lisboa (nem a menos de 1500 metros de altitude) que sirva este prato, mas aceitamos sugestões.

O restaurante encerra ao Domingo e à Segunda-feira, e está temporariamente sem poder aceitar pagamento por cartão (queremos acreditar que é temporário, a gerência fez questão de espalhar vários avisos pelas paredes); mas há uma caixa MB a poucos metros de distância, descendo a Calçada do lado direito. Já referimos a dimensão das doses mas, a título ilustrativo, podemos confirmar que uma dose de arroz de carqueja e meia dose de ervilhas dão para alimentar 4 pessoas que gostam de repetir, pela módica quantia de 19,50. Com vinho da casa, água, sobremesas e café, é pouco provável que o preço de uma refeição n’O Serrano exceda os 10 euros por cabeça. Restam dúvidas sobre onde almoçar esta semana?

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Osteria: il nuovo buraquinho

Como já deverão ter lido, a Osteria é o mais recente projecto das responsáveis pelo restaurante Pharmacia e pelas Taberna e Petiscaria Ideais. A Osteria tem direito não só a um cognome (Cucina di amici, leia-se “cozinha de amigos”), mas também a um motto de contornos quase religiosos: “Cremos que a cozinha é única e indivisível”. Perante esta afirmação tão convicta, torna-se curiosa a utilização do adjectivo “indivisível” uma vez que, assim que nos sentamos, somos presenteados com o monólogo comum aos já 4 restaurantes da mesma gerência: sobre como o conceito é “petiscar”, que todos os pratos “devem ser partilhados” e que se recomenda um ratio de 1 dose e meia por pessoa. Acreditamos, aliás, cremos que o significado desta máxima prende-se com a defesa de uma cozinha íntegra, sem invenções nem contágio; mas acreditamos ainda mais em estabelecimentos que dispensam manifestos ou bulas explicativas e deixam os pratos falar por si.
Fomos pela primeira vez à Osteria há cerca de 2 meses, poucas semanas após a abertura. Conseguimos a proeza de reservar uma das poucas mesas com espaço suficiente para 4 pessoas, no turno das 20h00 (foi nos pedido que vagássemos a mesa às 22h00, o que nos parece razoável). E regressámos recentemente para um segundo jantar, no mesmo horário e no mesmo dia da semana da primeira visita, desta vez sem reserva, tendo ficado numa das mesas mais pequenas.
Boas entradas.

Boas entradas.

Situada na Rua das Madres na Madragoa, muito próximo da Taberna e da Petiscaria Ideiais, a Osteria surge num espaço minúsculo, com capacidade para não mais do que 25 pessoas. A sala está separada da cozinha apenas por um balcão, e a decoração divide-se entre as paredes italianas (cobertas de molduras com dizeres e fotografias, bandeiras da Squadra Azzurra, etc.), e as mesas e cadeiras (portuguesas?) recicladas, oriundas de salas de aula, refeitórios e tascas, e propositadamente desemparelhadas. Apesar de ter ficado engraçado e de reconhecermos a intenção de se criar um ambiente descontraído e cosy, o conforto é relativo. As cadeiras não são cómodas, o espaço reduzido nas mesas obriga a manobras de Tetris quando os pratos e as bebidas começam a chegar, e os ganchos para pendurar as carteiras e os casacos são manifestamente insuficientes. Tendo em conta que, depois das obras, já não faz sentido referirmo-nos à Toscana como o “buraquinho”, achamos que a Osteria é uma forte candidata a herdar este epíteto.
Osteria

Casa cheia.

Ainda sobre a questão da comodidade: à semelhança da Taberna e da Petiscaria (e do estabelecimento formerly known as buraquinho), a Osteria não aceita pagamento por cartão, com a agravante de o Multibanco mais próximo ficar numa CGD na D. Carlos I, quase a chegar ao IADE. Uma nota aos estabelecimentos que insistem nesta prática: é indecente obrigar um cliente a deslocar-se durante quase 10 minutos, tendo de desbravar caminho entre pré-adolescentes que consomem baldes de álcool barato à porta de smart shops e de 7-11’s, ainda para mais com a agravante de as empregadas exigirem que se deixe um documento de identificação no restaurante enquanto se vai levantar dinheiro. Se o consumo expectável por pessoa ultrapassa os 15 euros, como é o caso na Osteria, não há desculpa para não se providenciar a forma de pagamento mais cómoda e imediata.

Pondo de parte os pormenores acima descritos (que muito pesam na avaliação do Miudezas de toda e qualquer refeição fora de casa), queremos deixar uma nota positiva para o atendimento simpático, e para a oferta de uma pequena entrada acompanhada por um welcome drink (bruschetta com tomate e azeite e um copo de lambruschino) em vez da imposição de um couvert. A carta é extensa e variada e muito bem executada por Chiara Ferro; as sobremesas são da autoria da sua conterrânea Michela Altieri.

Almôndegas com puré.

Almôndegas com puré.

Fizemos questão de experimentar pratos diferentes nas duas visitas. Gostámos muito dos pratos de carne: fígado a veneziana com polenta, tudo regado com um molho apuradíssimo, e o fígado cortado bem fino; dos scaloppine de frango em escabeche, e das almôndegas de vitela com molho de tomate e puré de batata. Acompanhámos com os gnocchi caseiros, que são muito bons, e com um prato leve mas saboroso de legumes salteados com pinhões e manjericão (courgette, cenoura, feijão verde). Ficámos menos entusiasmados com os pratos de marisco: um risotto de camarão delicioso e rico contrastou fortemente com um prato de couscous com marisco variado, com mão pesada no uso da canela, uma criação adocicada e desconcertante que optámos por nem terminar. Mais infeliz foi o risotto de noz e queijo taleggio, um monstro lácteo que atinge a proeza de ser simultaneamente desprovido de sabor e enjoativo de tão pesado, para além de que estava longe de estar no ponto. Em linha com os contrastes já referidos, o panorama das sobremesas também nos deixou divididos: adorámos a sobremesa de pêra e ricotta, mas ficámos desiludidos com a tarte de limão e pinhões. Também incompreensível é o facto de o café ser Nespresso e de não haver uma macchina como deve ser: fica a sugestão de um bom uso que a gerência da Osteria poderá dar aos euros poupados até à data em comissões de pagamentos com cartão.

Risotto de camarão.

Risotto de camarão e sortido de cadeiras.

Lisboa precisava de um restaurante italiano tradicional com preços não-proibitivos, e a Osteria responde parcialmente a essa necessidade. Sentimos que há muito espaço para melhorar e temos vontade de regressar uma terceira vez para experimentar mais pratos, nomeadamente a massa seca com brócolos e salsicha caseira, o coelho em conserva com ervas e o carpaccio de língua.

Vediamo se a Osteria tomará em conta o feedback recebido nos primeiros meses de operação, e se haverá receptividade para fazer os pequenos ajustes que poderão tornar este restaurante num dos espaços mais acolhedores e originais para bem comer na capital.

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Discreta ou indigesta: as duas faces da clandestinidade chinesa

Antes de partilharmos as experiências do Miudezas em duas das salas de jantar chinesas situadas no lado ímpar da Rua do Benformoso, gostaríamos de aproveitar o facto de estarmos a abordar o tema para reflectir sobre a evolução curiosa e contraditória da imagem da cozinha chinesa no nosso país ao longo dos últimos anos.

Foi há 7 anos que a ASAE levou a cabo a sua “Operação Oriente” que, de acordo com este artigo publicado no DN em 2010, resultou no encerramento de 40% dos restaurantes chineses no nosso país. Os consumidores ficaram horrorizados com as filmagens e fotografias de carne-mistério mal congelada e de superfícies sujas que foram divulgadas no âmbito desta operação. Naquilo que só pode ser descrito como um circo mediático, esta inspecção deixou marcas profundas e irreversíveis na confiança que os portugueses depositavam nos restaurantes chineses e, em particular, nos padrões de higiene e segurança alimentar neles praticados.

Curiosamente, esta demonização do chop suey (e dos molhos minados com MSG e do crepe e do arroz chau chau com fiambre e ervilhas) coincidiu com o aumento de popularidade de um determinado conceito de sushi que, por sua vez, deu origem ao conceito do buffet asiático. Para todas as carteiras, gostos e ocasiões, o panorama da comida dita asiática no Portugal pós-ASAE transformou-se num universo esquisito: tapetes rolantes em centros comerciais suburbanos servem arroz peganhento com salmão descongelado, intercalado com crepes fritos e tiras de galinha com amêndoa, coexistindo com outra realidade, nas artérias das grandes cidades e em estabelecimentos mais upscale, onde encontramos um sushi que ignora totalmente a tradição japonesa, pertencente à facção mais colorida e tropical (usamos adjectivos diplomáticos) do sushi brasileiro – vide Confrarias, Olivier Yakuza, Sushi Café, Origami e afins.

Face a esta tendência, os cerca de 60% de restaurantes chineses que sobreviveram à Operação Oriente não tiveram outro remédio que não sujeitarem-se a um rebranding e reabrir como estabelecimento “japonês” ou “asiático”, num fenómeno deprimente a que no Miudezas gostamos de apelidar de the birth of the sushinês.

Sushinês

Sushinês

Já os poucos restaurantes chineses genuínos permaneceram discreta e serenamente alheios a esta convulsão, e continuaram a servir uma gastronomia mais genuína à clientela conhecedora e entusiasta que sempre os frequentou (incluindo clientes das comunidades chinesa e macaense). Falamos no saudoso Zhu Shan da Rua Luís de Camões em Alcântara, cuja gerência abandonou o nosso país recentemente rumo à terra-mãe. E no Little Singapore em Cascais, que deixa muitas saudades do tofu sambal e da sopa wan tan perfeita. E no restaurante Muito Bom na Praça de Espanha, que continua a deliciar uma clientela predominantemente chinesa, bem como clientes vegetarianos e vegan que não se importam que tudo saiba ao mesmo molho com uma pitada de canela. E no Fu Jian em Carnaxide, onde encontramos especialidades do sul da China. E, por último, nos badalados Hong Kong Grande Palácio (Pascoal de Melo, em frente à Portugália), Yum Cha Garden (Oeiras) e no mais inacessível Estoril Mandarim, sobre os quais já muito se escreveu.

Considerando o crescimento visível da comunidade chinesa no nosso país nos últimos anos, bem como a relação histórica entre Portugal e a China via Macau e não só, a oferta de bons restaurantes chineses na capital é absurdamente reduzida; isto é, de estabelecimentos com as devidas licenças, certificados e legitimidade para operar como tal. Restaurantes cuja qualidade e consistência provocam nos clientes uma reacção de amnésia, que elimina quaisquer vestígios traumatizantes da “Operação Oriente”.

A escassez destes estabelecimentos, aliada ao low-profile daqueles poucos que se mantiveram abertos, e sobretudo ao aumento expressivo dos preços praticados em alguns dos restaurantes que referimos acima (Hong Kong, Yum Cha) na sequência de artigos elogiosos publicados na Time Out e derivados, fez com que se tenha verificado um fenómeno paradoxal, que levanta muitas questões sobre o estado de (des)afinação da consciência e da memória dos clientes portugueses: a aceitação e celebração dos “restaurantes” clandestinos em Lisboa, no eixo Martim Moniz-Intendente.

Para muitos dos apreciadores mais recentes da gastronomia chinesa, estas salas de jantar de residências particulares (?) constituem a experiência mais fidedigna e acessível daquilo que consideram ser the real deal, apimentada pelo facto de se tratar de um fenómeno cada vez menos secreto. A verdade é que sim, trata-se de uma experiência a anos-luz do combinado 5 com crepe, e nestas salas conseguimos encontrar dezenas de pratos e especialidades que nem sequer estão disponíveis nos restaurantes mais caros que referimos acima. De realçar também a existência uma maior diversidade a nível de pratos vegetarianos, em teoria – na prática, não pomos as mãos no fogo, sendo provável que no decorrer do processo de confecção sejam regados com um caldo à base de galinha, ou até cozinhados no mesmo wok onde 5 minutos antes foram fritas umas línguas de pato ou umas tripas.

Ma po tofu e pak choy: vegetariano, em princípio.

Ma po tofu e pak choy: vegetariano, em princípio.

A questão essencial que queremos colocar é a seguinte: se existe uma procura crescente de gastronomia chinesa tradicional a preços mais acessíveis por parte dos consumidores, porque é que as famílias que detêm estes espaços não procuram sair da clandestinidade?

Damos como exemplo duas destas salas na Rua do Benformoso, paralela à Rua da Palma. Existem 2 salas clandestinas em 2 números ímpares, do mesmo lado da rua, ambas situadas num 2º andar — sendo que não existe margem de comparação entre o nº 43 e o nº 69. Ambos têm ementas muito semelhantes, mas recomendamos o primeiro e repudiamos o segundo. O nº 43 serve pratos caseiros com ingredientes identificáveis: a título de exemplo e com base na refeição mais recente que lá fizemos, temos o ma po tofu, picante q.b., com o tofu sedoso e bem temperado; sopa (grande, para partilhar) de tomate e ovo, muito equilibrada, pontuada com coentros frescos; sopa de bola de peixe de confecção curiosa, diferente da versão clássica com caldo avinagrado mas não obstante muito saborosa, com ovo e pedaços de choco; couve pak choy salteada e não empapada em óleo de sésamo e alho; noodles de feijão e almôndegas de vaca servidas em caldo.

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Já o nº 69 serve sopas derivadas de água de lavar pratos; vegetais salteados de qualidade decente; e uns muito duvidosos dumplings de “galinha”, dumplings sobre os quais nos tentámos convencer que se tratava de um engano e que nos tinham servido, na realidade, dumplings de porco: nunca ficámos tão horrorizados como no momento em que recebemos a conta e nos apercebemos pelo preço que tínhamos, de facto, consumido carne-mistério num invólucro de massa esverdeada.

dumplings

The horror, the horror.

The horror, the horror.

O serviço em ambas as casas é cordial e despachado, contrastando com o atendimento estilo generalissimo praticado pelas senhoras do Hong Kong Grande Palácio. As casas de banho são um pesadelo comum a todos os clandestinos que frequentámos: são, efectivamente, os WC das casas onde operam estas salas de jantar abertas ao público, pelo que mesmo que já se tenha acabado o sabão para as mãos e as toalhas de papel, é garantido que vamos encontrar objectos como escovas de dentes e corta-unhas. Apesar disto, o nível de limpeza, arrumação e higiene da sala de jantar do nº 43 é incomparavelmente superior ao do nº 69 (sobre esta questão, convém sublinhar que somos os primeiros a reconhecer as diferenças culturais entre o Ocidente e a China, no que diz respeito aos hábitos de asseio à mesa – contudo, continuamos a preferir gozar o nosso jantar numa mesa sem vestígios de refeições anteriores). Neste aspecto, o nº 43 fica também a anos-luz de outra sala de jantar, conhecida como o  “centro de apoio a estudantes Erasmus”, no Largo da Severa.

Com a reabilitação urbana do eixo Martim Moniz-Mouraria-Intendente e a celebração (que já tardava) desta zona como bastião do multiculturalismo na capital, seria muito interessante que a CML, através de plataformas como o programa aimouraria, criasse condições para que as famílias que exploram negócios de restauração / confecção pudessem exercer esta actividade com toda a legitimidade, promovendo desta forma a integração através do empreendedorismo e, acima de tudo, a aproximação entre comunidades. Não vale sequer a pena citar o exemplo do Mercado-Fusão, que é constrangedor de tão white-washed, tratando-se de um projecto que ficou muito aquém das expectativas: na realidade, não é mais do que um food-court a céu aberto que não representa, nem de perto nem de longe, a riqueza multicultural desta zona de Lisboa.

Mercado de fusão?

Mercado de fusão?

Face ao exposto, acreditamos que há uma enorme lacuna na restauração em Portugal: estabelecimentos chineses tradicionais e genuínos com preços abaixo dos 15 euros por cabeça. A gastronomia chinesa tem uma tradição milenar, riquíssima e extremamente diversificada face à imensidão do território, e merece ser divulgada na sua forma mais autêntica e menos ocidentalizada. Nesse sentido, e para quem quiser saber mais sobre como e o que é que se come na China, recomendamos os livros da britânica Fuschia Dunlop (em particular este) e a deslumbrante série Bite of China, disponível no Youtube com legendas num inglês macarrónico mas perfeitamente inteligível.

Temos consciência de que continuaremos a frequentar o nº 43 e a desbravar a vasta ementa de pratos tradicionais em oferta. Contudo, preferíamos fazê-lo num ambiente legítimo e controlado, onde (queremos acreditar) não houvesse espaço para dúvidas relativamente a questões não só de higiene e segurança alimentar, mas sobretudo no que que concerne o respeito pelos direitos e a salvaguarda de condições dignas e dentro da lei para quem lá trabalha. No Miudezas, gostamos sempre de saber a história e a proveniência daquilo que comemos — para evitar indigestões.

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