Osteria: il nuovo buraquinho

Como já deverão ter lido, a Osteria é o mais recente projecto das responsáveis pelo restaurante Pharmacia e pelas Taberna e Petiscaria Ideais. A Osteria tem direito não só a um cognome (Cucina di amici, leia-se “cozinha de amigos”), mas também a um motto de contornos quase religiosos: “Cremos que a cozinha é única e indivisível”. Perante esta afirmação tão convicta, torna-se curiosa a utilização do adjectivo “indivisível” uma vez que, assim que nos sentamos, somos presenteados com o monólogo comum aos já 4 restaurantes da mesma gerência: sobre como o conceito é “petiscar”, que todos os pratos “devem ser partilhados” e que se recomenda um ratio de 1 dose e meia por pessoa. Acreditamos, aliás, cremos que o significado desta máxima prende-se com a defesa de uma cozinha íntegra, sem invenções nem contágio; mas acreditamos ainda mais em estabelecimentos que dispensam manifestos ou bulas explicativas e deixam os pratos falar por si.
Fomos pela primeira vez à Osteria há cerca de 2 meses, poucas semanas após a abertura. Conseguimos a proeza de reservar uma das poucas mesas com espaço suficiente para 4 pessoas, no turno das 20h00 (foi nos pedido que vagássemos a mesa às 22h00, o que nos parece razoável). E regressámos recentemente para um segundo jantar, no mesmo horário e no mesmo dia da semana da primeira visita, desta vez sem reserva, tendo ficado numa das mesas mais pequenas.
Boas entradas.

Boas entradas.

Situada na Rua das Madres na Madragoa, muito próximo da Taberna e da Petiscaria Ideiais, a Osteria surge num espaço minúsculo, com capacidade para não mais do que 25 pessoas. A sala está separada da cozinha apenas por um balcão, e a decoração divide-se entre as paredes italianas (cobertas de molduras com dizeres e fotografias, bandeiras da Squadra Azzurra, etc.), e as mesas e cadeiras (portuguesas?) recicladas, oriundas de salas de aula, refeitórios e tascas, e propositadamente desemparelhadas. Apesar de ter ficado engraçado e de reconhecermos a intenção de se criar um ambiente descontraído e cosy, o conforto é relativo. As cadeiras não são cómodas, o espaço reduzido nas mesas obriga a manobras de Tetris quando os pratos e as bebidas começam a chegar, e os ganchos para pendurar as carteiras e os casacos são manifestamente insuficientes. Tendo em conta que, depois das obras, já não faz sentido referirmo-nos à Toscana como o “buraquinho”, achamos que a Osteria é uma forte candidata a herdar este epíteto.
Osteria

Casa cheia.

Ainda sobre a questão da comodidade: à semelhança da Taberna e da Petiscaria (e do estabelecimento formerly known as buraquinho), a Osteria não aceita pagamento por cartão, com a agravante de o Multibanco mais próximo ficar numa CGD na D. Carlos I, quase a chegar ao IADE. Uma nota aos estabelecimentos que insistem nesta prática: é indecente obrigar um cliente a deslocar-se durante quase 10 minutos, tendo de desbravar caminho entre pré-adolescentes que consomem baldes de álcool barato à porta de smart shops e de 7-11’s, ainda para mais com a agravante de as empregadas exigirem que se deixe um documento de identificação no restaurante enquanto se vai levantar dinheiro. Se o consumo expectável por pessoa ultrapassa os 15 euros, como é o caso na Osteria, não há desculpa para não se providenciar a forma de pagamento mais cómoda e imediata.

Pondo de parte os pormenores acima descritos (que muito pesam na avaliação do Miudezas de toda e qualquer refeição fora de casa), queremos deixar uma nota positiva para o atendimento simpático, e para a oferta de uma pequena entrada acompanhada por um welcome drink (bruschetta com tomate e azeite e um copo de lambruschino) em vez da imposição de um couvert. A carta é extensa e variada e muito bem executada por Chiara Ferro; as sobremesas são da autoria da sua conterrânea Michela Altieri.

Almôndegas com puré.

Almôndegas com puré.

Fizemos questão de experimentar pratos diferentes nas duas visitas. Gostámos muito dos pratos de carne: fígado a veneziana com polenta, tudo regado com um molho apuradíssimo, e o fígado cortado bem fino; dos scaloppine de frango em escabeche, e das almôndegas de vitela com molho de tomate e puré de batata. Acompanhámos com os gnocchi caseiros, que são muito bons, e com um prato leve mas saboroso de legumes salteados com pinhões e manjericão (courgette, cenoura, feijão verde). Ficámos menos entusiasmados com os pratos de marisco: um risotto de camarão delicioso e rico contrastou fortemente com um prato de couscous com marisco variado, com mão pesada no uso da canela, uma criação adocicada e desconcertante que optámos por nem terminar. Mais infeliz foi o risotto de noz e queijo taleggio, um monstro lácteo que atinge a proeza de ser simultaneamente desprovido de sabor e enjoativo de tão pesado, para além de que estava longe de estar no ponto. Em linha com os contrastes já referidos, o panorama das sobremesas também nos deixou divididos: adorámos a sobremesa de pêra e ricotta, mas ficámos desiludidos com a tarte de limão e pinhões. Também incompreensível é o facto de o café ser Nespresso e de não haver uma macchina como deve ser: fica a sugestão de um bom uso que a gerência da Osteria poderá dar aos euros poupados até à data em comissões de pagamentos com cartão.

Risotto de camarão.

Risotto de camarão e sortido de cadeiras.

Lisboa precisava de um restaurante italiano tradicional com preços não-proibitivos, e a Osteria responde parcialmente a essa necessidade. Sentimos que há muito espaço para melhorar e temos vontade de regressar uma terceira vez para experimentar mais pratos, nomeadamente a massa seca com brócolos e salsicha caseira, o coelho em conserva com ervas e o carpaccio de língua.

Vediamo se a Osteria tomará em conta o feedback recebido nos primeiros meses de operação, e se haverá receptividade para fazer os pequenos ajustes que poderão tornar este restaurante num dos espaços mais acolhedores e originais para bem comer na capital.

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Discreta ou indigesta: as duas faces da clandestinidade chinesa

Antes de partilharmos as experiências do Miudezas em duas das salas de jantar chinesas situadas no lado ímpar da Rua do Benformoso, gostaríamos de aproveitar o facto de estarmos a abordar o tema para reflectir sobre a evolução curiosa e contraditória da imagem da cozinha chinesa no nosso país ao longo dos últimos anos.

Foi há 7 anos que a ASAE levou a cabo a sua “Operação Oriente” que, de acordo com este artigo publicado no DN em 2010, resultou no encerramento de 40% dos restaurantes chineses no nosso país. Os consumidores ficaram horrorizados com as filmagens e fotografias de carne-mistério mal congelada e de superfícies sujas que foram divulgadas no âmbito desta operação. Naquilo que só pode ser descrito como um circo mediático, esta inspecção deixou marcas profundas e irreversíveis na confiança que os portugueses depositavam nos restaurantes chineses e, em particular, nos padrões de higiene e segurança alimentar neles praticados.

Curiosamente, esta demonização do chop suey (e dos molhos minados com MSG e do crepe e do arroz chau chau com fiambre e ervilhas) coincidiu com o aumento de popularidade de um determinado conceito de sushi que, por sua vez, deu origem ao conceito do buffet asiático. Para todas as carteiras, gostos e ocasiões, o panorama da comida dita asiática no Portugal pós-ASAE transformou-se num universo esquisito: tapetes rolantes em centros comerciais suburbanos servem arroz peganhento com salmão descongelado, intercalado com crepes fritos e tiras de galinha com amêndoa, coexistindo com outra realidade, nas artérias das grandes cidades e em estabelecimentos mais upscale, onde encontramos um sushi que ignora totalmente a tradição japonesa, pertencente à facção mais colorida e tropical (usamos adjectivos diplomáticos) do sushi brasileiro – vide Confrarias, Olivier Yakuza, Sushi Café, Origami e afins.

Face a esta tendência, os cerca de 60% de restaurantes chineses que sobreviveram à Operação Oriente não tiveram outro remédio que não sujeitarem-se a um rebranding e reabrir como estabelecimento “japonês” ou “asiático”, num fenómeno deprimente a que no Miudezas gostamos de apelidar de the birth of the sushinês.

Sushinês

Sushinês

Já os poucos restaurantes chineses genuínos permaneceram discreta e serenamente alheios a esta convulsão, e continuaram a servir uma gastronomia mais genuína à clientela conhecedora e entusiasta que sempre os frequentou (incluindo clientes das comunidades chinesa e macaense). Falamos no saudoso Zhu Shan da Rua Luís de Camões em Alcântara, cuja gerência abandonou o nosso país recentemente rumo à terra-mãe. E no Little Singapore em Cascais, que deixa muitas saudades do tofu sambal e da sopa wan tan perfeita. E no restaurante Muito Bom na Praça de Espanha, que continua a deliciar uma clientela predominantemente chinesa, bem como clientes vegetarianos e vegan que não se importam que tudo saiba ao mesmo molho com uma pitada de canela. E no Fu Jian em Carnaxide, onde encontramos especialidades do sul da China. E, por último, nos badalados Hong Kong Grande Palácio (Pascoal de Melo, em frente à Portugália), Yum Cha Garden (Oeiras) e no mais inacessível Estoril Mandarim, sobre os quais já muito se escreveu.

Considerando o crescimento visível da comunidade chinesa no nosso país nos últimos anos, bem como a relação histórica entre Portugal e a China via Macau e não só, a oferta de bons restaurantes chineses na capital é absurdamente reduzida; isto é, de estabelecimentos com as devidas licenças, certificados e legitimidade para operar como tal. Restaurantes cuja qualidade e consistência provocam nos clientes uma reacção de amnésia, que elimina quaisquer vestígios traumatizantes da “Operação Oriente”.

A escassez destes estabelecimentos, aliada ao low-profile daqueles poucos que se mantiveram abertos, e sobretudo ao aumento expressivo dos preços praticados em alguns dos restaurantes que referimos acima (Hong Kong, Yum Cha) na sequência de artigos elogiosos publicados na Time Out e derivados, fez com que se tenha verificado um fenómeno paradoxal, que levanta muitas questões sobre o estado de (des)afinação da consciência e da memória dos clientes portugueses: a aceitação e celebração dos “restaurantes” clandestinos em Lisboa, no eixo Martim Moniz-Intendente.

Para muitos dos apreciadores mais recentes da gastronomia chinesa, estas salas de jantar de residências particulares (?) constituem a experiência mais fidedigna e acessível daquilo que consideram ser the real deal, apimentada pelo facto de se tratar de um fenómeno cada vez menos secreto. A verdade é que sim, trata-se de uma experiência a anos-luz do combinado 5 com crepe, e nestas salas conseguimos encontrar dezenas de pratos e especialidades que nem sequer estão disponíveis nos restaurantes mais caros que referimos acima. De realçar também a existência uma maior diversidade a nível de pratos vegetarianos, em teoria – na prática, não pomos as mãos no fogo, sendo provável que no decorrer do processo de confecção sejam regados com um caldo à base de galinha, ou até cozinhados no mesmo wok onde 5 minutos antes foram fritas umas línguas de pato ou umas tripas.

Ma po tofu e pak choy: vegetariano, em princípio.

Ma po tofu e pak choy: vegetariano, em princípio.

A questão essencial que queremos colocar é a seguinte: se existe uma procura crescente de gastronomia chinesa tradicional a preços mais acessíveis por parte dos consumidores, porque é que as famílias que detêm estes espaços não procuram sair da clandestinidade?

Damos como exemplo duas destas salas na Rua do Benformoso, paralela à Rua da Palma. Existem 2 salas clandestinas em 2 números ímpares, do mesmo lado da rua, ambas situadas num 2º andar — sendo que não existe margem de comparação entre o nº 43 e o nº 69. Ambos têm ementas muito semelhantes, mas recomendamos o primeiro e repudiamos o segundo. O nº 43 serve pratos caseiros com ingredientes identificáveis: a título de exemplo e com base na refeição mais recente que lá fizemos, temos o ma po tofu, picante q.b., com o tofu sedoso e bem temperado; sopa (grande, para partilhar) de tomate e ovo, muito equilibrada, pontuada com coentros frescos; sopa de bola de peixe de confecção curiosa, diferente da versão clássica com caldo avinagrado mas não obstante muito saborosa, com ovo e pedaços de choco; couve pak choy salteada e não empapada em óleo de sésamo e alho; noodles de feijão e almôndegas de vaca servidas em caldo.

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Já o nº 69 serve sopas derivadas de água de lavar pratos; vegetais salteados de qualidade decente; e uns muito duvidosos dumplings de “galinha”, dumplings sobre os quais nos tentámos convencer que se tratava de um engano e que nos tinham servido, na realidade, dumplings de porco: nunca ficámos tão horrorizados como no momento em que recebemos a conta e nos apercebemos pelo preço que tínhamos, de facto, consumido carne-mistério num invólucro de massa esverdeada.

dumplings

The horror, the horror.

The horror, the horror.

O serviço em ambas as casas é cordial e despachado, contrastando com o atendimento estilo generalissimo praticado pelas senhoras do Hong Kong Grande Palácio. As casas de banho são um pesadelo comum a todos os clandestinos que frequentámos: são, efectivamente, os WC das casas onde operam estas salas de jantar abertas ao público, pelo que mesmo que já se tenha acabado o sabão para as mãos e as toalhas de papel, é garantido que vamos encontrar objectos como escovas de dentes e corta-unhas. Apesar disto, o nível de limpeza, arrumação e higiene da sala de jantar do nº 43 é incomparavelmente superior ao do nº 69 (sobre esta questão, convém sublinhar que somos os primeiros a reconhecer as diferenças culturais entre o Ocidente e a China, no que diz respeito aos hábitos de asseio à mesa – contudo, continuamos a preferir gozar o nosso jantar numa mesa sem vestígios de refeições anteriores). Neste aspecto, o nº 43 fica também a anos-luz de outra sala de jantar, conhecida como o  “centro de apoio a estudantes Erasmus”, no Largo da Severa.

Com a reabilitação urbana do eixo Martim Moniz-Mouraria-Intendente e a celebração (que já tardava) desta zona como bastião do multiculturalismo na capital, seria muito interessante que a CML, através de plataformas como o programa aimouraria, criasse condições para que as famílias que exploram negócios de restauração / confecção pudessem exercer esta actividade com toda a legitimidade, promovendo desta forma a integração através do empreendedorismo e, acima de tudo, a aproximação entre comunidades. Não vale sequer a pena citar o exemplo do Mercado-Fusão, que é constrangedor de tão white-washed, tratando-se de um projecto que ficou muito aquém das expectativas: na realidade, não é mais do que um food-court a céu aberto que não representa, nem de perto nem de longe, a riqueza multicultural desta zona de Lisboa.

Mercado de fusão?

Mercado de fusão?

Face ao exposto, acreditamos que há uma enorme lacuna na restauração em Portugal: estabelecimentos chineses tradicionais e genuínos com preços abaixo dos 15 euros por cabeça. A gastronomia chinesa tem uma tradição milenar, riquíssima e extremamente diversificada face à imensidão do território, e merece ser divulgada na sua forma mais autêntica e menos ocidentalizada. Nesse sentido, e para quem quiser saber mais sobre como e o que é que se come na China, recomendamos os livros da britânica Fuschia Dunlop (em particular este) e a deslumbrante série Bite of China, disponível no Youtube com legendas num inglês macarrónico mas perfeitamente inteligível.

Temos consciência de que continuaremos a frequentar o nº 43 e a desbravar a vasta ementa de pratos tradicionais em oferta. Contudo, preferíamos fazê-lo num ambiente legítimo e controlado, onde (queremos acreditar) não houvesse espaço para dúvidas relativamente a questões não só de higiene e segurança alimentar, mas sobretudo no que que concerne o respeito pelos direitos e a salvaguarda de condições dignas e dentro da lei para quem lá trabalha. No Miudezas, gostamos sempre de saber a história e a proveniência daquilo que comemos — para evitar indigestões.

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Lira d’Ouro: tão longe e tão perto

Numa era em que estabelecimentos tradicionais que servem boa comida portuguesa escasseiam, para dar lugar à cozinha global mais indistinta e de qualidade questionável (kebabs, pizzas, hamburgers, sushinês, comida de fusão), é sempre surpreendente quando vamos a um restaurante e ficamos com a impressão de que estamos a comer em casa da nossa avó. Não só pela qualidade aconchegante e familiar, mas também porque nos é servida comida tradicional portuguesa confeccionada com critério e dedicação.

Ementa

Assim é o restaurante Lira d’Ouro em Lisboa, situado numa transversal da Rua da Escola Politécnica, mais precisamente no nº 10 da Rua Nova de S. Mamede, em frente ao largo da igreja. Sendo este estabelecimento já conhecido por uma das metades do Miudezas (que recorda e recomenda o arroz de rim ao almoço), chegámos para jantar por volta das 21h a uma quarta-feira, e deparámo-nos com uma ampla sala de jantar completamente vazia. O que não é totalmente de estranhar, tendo em conta a localização desta casa que aqui se encontra discretamente encurralada desde os anos 60, entre o Salitre, o Príncipe Real e o Rato. Trata-se claramente de uma zona que vive e funciona sobretudo no horário de expediente, sendo que a actividade dos restaurantes da zona se concentra sobretudo no serviço de almoço. De fundo o som do Guimarães – Braga para a taça a ecoar pela sala rectangular, transmitido numa televisão que era suficientemente grande para nos levar a recomendar o Lira d’Ouro a quem gosta de ver futebol à refeição (facção não-fumadores).

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Consta que Alexandre O’Neill foi frequentador assíduo do Lira d’Ouro e é fácil perceber porquê, mesmo com o passar dos anos. Para além da cordialidade comedida dos empregados, o ambiente destaca-se por ser discreto e pacato, num espaço físico simples e de assinalável bom gosto. O Lira d’Ouro mantém intactos traços originais como a porta de madeira antiga, as cadeiras com as costas de madeira do tipo escola primária, balcão de mármore, etc. As ementas do dia continuam a ser redigidas na máquina de escrever.

Canja

Começámos por uma canja de galinha que cumpria todos os preceitos a nível de sabor, textura, temperatura, quantidade de miudezas, e presença de uma folha de hortelã para cortar a (pouca) gordura. De seguida, optámos pelas ovas de pescada cozida com batatas e legumes e por uma dose de iscas com elas.  As ovas não eram as melhores e mais frescas que provámos mas estavam bem cozidas; já os acompanhamentos estavam excelentes, com especial destaque para as batatas cozidas. É facil esquecer o potencial de uma batata de boa qualidade, com o tempero certo e o tempo de cozedura perfeito, mas ficámos muito felizes ao ser relembrados a cada garfada. O vinho branco a acompanhar era decente e honesto, e muito apetecível tendo em conta o preço. As iscas passaram o teste do Miudezas: cortadas bem fininhas e com batatas fritas às rodelas ainda mais finas, regadas com um molho rico e muito saboroso. Rematámos a refeição com um leite de creme caseiro, queimado na hora como dita a regra, que estava muito bom.

Em suma, na Casa Lira d’Ouro continuamos a encontrar tudo no sítio: serviço e refeições de qualidade inquestionável, pratos deliciosos e sem invenções, como em casa da nossa avó. Dificilmente haverá na zona outro sítio de comida tradicional portuguesa em que a qualidade seja tão consistente e a preços tão baixos: pela refeição acima descrita, pagámos menos de 9 euros por pessoa. Deixamos a recomendação a quem quiser jantar bem antes ou depois de uma sessão na Cinemateca,ou simplesmente a quem estiver à procura de uma óptima refeição num ambiente de outros tempos, a contrastar com o ambiente frenético de alguns restaurantes mais movimentados nas zonas vizinhas. Encerra aos Domingos.

Liradouro11

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It’s the end of burger world as we know it.

Se já está na Internet é porque é verdade.

O Honorato foi comprado pelo grupo Multifood S.A. (responsáveis pela cadeia Vitaminas).

Nunca pensámos ter de googlar as palavras “tombstone generator“, mas fomos obrigados.

tombstone

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2012 no retrovisor

Já com uma distância saudável da febre das listas de fim de ano, queremos partilhar com os leitores do Miudezas o melhor (e o pior) que comemos em 2012.

O melhor:

Filetes de pescada no Maria Moita, Leça da Palmeira – a magia do panado ou os melhores e mais frescos filetes de pescada que alguma vez provámos.

Robalo no Salta-ó-Muro, Matosinhos – a perfeição imaculada vinda do alto mar para a mesa de uma tasca que bate a milhas muitos restaurantes de peixe em qualquer sítio do mundo.

Sarapatel no Zuari, Lisboa – red-hot e avinagrado, a combater qualquer esquisitice que se possa sentir em relação a miudezas.

Sopa de peixe no Granhão, Carvalhal / Comporta – no Alentejo encostado ao Atlântico, algures entre a sopa alentejana e a caldeirada. Uma autêntica refeição, de chorar por mais.

Amêijoas à bulhão pato com torradas de pão alentejano e muita manteiga no Gervásio, Brejos da Carregueira – o que apetece comer depois de oito horas na praia.

Frigideira do Chefe no Búzio, Praia das Maçãs, Sintra – arroz de mar infalível.

Chocos com tinta na Toscana, Lisboa – o “Buraquinho” ficou de cara lavada em 2012, mas mantêm-se inalterados a qualidade, os preços, bem como o sistema métrico e o léxico exclusivos a este estabelecimento.

Lombo de porco panado em nozes com creme seguido de vodka aromatizada com aipo na Tapadinha, Lisboa – sabores ricos sem peso, num restaurante onde a qualidade é garantida há quase 20 anos.

Bonsai – pela excelência, pela consistência, pelo serviço acolhedor e pelos almoços de 10 euros.

Vitela assada e batatas na Adega dos Caquinhos, Guimarães – carne que se derrete na boca e vinho verde tinto que tinge os dentes.

Adega dos Caquinhos

Sericaia no Galito – bolo dourado e feito na hora, pontuado por igualmente dourado mel e ameixa de Elvas.

Leite creme com doce de abóbora no Toma Lá Dá Cá, Lisboa – criação brilhante de inspiração transmontana, numa dose generosa, sem cair no abismo do enjoo.

O Falcão e as batatas fritas do Honorato, Lisboa – o combo hamburger com batatas fritas que melhor resulta na capital.

A sopa de bolas de peixe do Fu Jian, Carnaxide – uma especialidade rara do sul da China que nunca imaginámos encontrar em Portugal – muito menos neste subúrbio lisboeta: caldo avinagrado perfeito a contrastar com as bolas de pão chinês recheadas com uma mistura extremamente salgada e forte de carne de porco e peixe.

Fu Jian

Fu Jian

Dobrada na Tasca do Gordo, Lisboa – até hoje não provámos melhor. Capaz de converter os mais cépticos.

Francesinha do Café Santiago, Porto – é raro ver um café/restaurante com capacidade para 67 pessoas a rebentar pelas costuras, com toda a gente sem excepção a deliciar-se com o mesmo prato: uma das melhores francesinhas da cidade do Porto.

Café Santiago

Café Santiago

O melhor lá fora:  

Presunto de pato na Taberna La Dolores, Madrid – descoberta surpreendente de cor vermelha e brilhante e textura extremamente suave, a acompanhar cerveja de pressão impecavelmente tirada.

Xiao long bao / soup dumplings no Leong’s Legends, Chinatown, Londres – afinal gostamos mais do caldo dentro do dumpling e não do inverso.

Leong's Legends

Leong’s Legends

Kottayam Fish / Malabar Prawn Curry no Ganapati, Camberwell, Londres – filetes de dourada com tomate, gengibre, manga verde, e ervas; caril de camarão com masala e um pão de massa folhada salgada maravilhoso chamado Kerala Paratha, a acompanhar pickles vários feitos à mão; numa refeição divinal com os sabores do Sul da India.

As costeletas de borrego no Mangal II, Dalston, Londres – Turkish delights em doses generosas com belíssima salada e cerveja do deli da esquina.

Mangal II

Mangal II

Kip Kerie Filet Rôti no Warung Mini, Surinaams Restaurant, Roterdão – picante ao ponto de nos pôr a suar, levantou-se um véu sobre a comida do Surinam, sobre a qual queremos descobrir muito mais.

Suriname

Warung Mini

Rôti de porc no Chez Navarre, Toulouse – lombo de porco assado como manda a tradição francesa,  num restaurante familiar que abre as portas ao almoço para um buffet livre mais económico.

Chez Navarre

Chez Navarre

Incontáveis pints de diferentes tipos de real ale, mais a memorável sandwich de porco assado com puré de maçã, piccalili e mostarda picante no Southampton Arms, Londres – trocámos o jantar por uma tarde prolongada no nosso pub preferido e não nos arrependemos.

Southampton Arms

Southampton Arms

Prémio “assim até nós seríamos vegan”: udon frio em caldo quente à base de miso de noz no Koya, Londres.

Comer com os olhos em Copenhaga : Smørrebrød (uma espécie de sandwiches tradicionais com variadíssimos conteúdos) no Christianshavns Smørrebrød e o Kartoffel kage (especialidade dinamarquesa com massa pão, creme de pasteleiro e polvilhada com chocolate em pó) no Lagkagehuset, ambos os sítios no perímetro de Christiania.

Copenhaga

Christianshavns Smørrebrød

Lagkagehuset

Lagkagehuset

O Japão menos longe: a Immenmanstrasse em Düsseldorf e o almoço no Takumi (negui shio ramen com nitamago à parte).

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Takumi

Takumi

O pior:

Menos estilo e mais substância – as pressões da era moderna, que se fazem sentir nas remodelações e subsequente perda de identidade de muitos restaurantes lisboetas.

O artigo da Time Out sobre o refeitório do Templo Hindu em Telheiras.

O plágio, quando o que é preciso é ideias originais, ou a praga das Hamburguerias do Bairro.

Os efeitos menos bons da mediatização desproporcional de sítios que se afirmam como artesanais – votos de uma recuperação rápida para o Honorato.

A fechar 2012, Lisboa vandalizada com os cartazes freira do soft-porn do Guilty.

O último pequeno-almoço fora de casa de 2012 (e provavelmente de sempre) no Café do Monte – uma tragédia em três actos, começando pela marca de baton na chávena de chá mal lavada, passando pelo cesto de torradas frias servidas sem pratos e culminando no bacon mal cozinhado.

A não existência de um pequeno almoço inglês / brunch decente por menos de 10 euros na capital.

A aldrabice do mercado fusão do Martim Moniz e a legislação que impede a proliferação de street food quando esta é a tendência mais forte e a produzir comida mais entusiasmante nas capitais europeias – e assim deveria ser numa das cidades da Europa que mais convida a estar na rua.

What could have been: o fim abrupto das roulottes e a margem de melhoramento e modernização que a comida lá servida ainda tinha pela frente (queremos acreditar).

Restaurantes de sushinês e o vago universo da comida “asiática” servida no Assuka e no Duck Tale – este último em particular com uma péssima relação preço-qualidade, um serviço confrangedor, e o desplante de apresentar um vinho 5 vezes mais caro do que na nossa garrafeira de bairro.

Finalmente e a propósito deste último, em jeito de desejo para 2013: que muitos mais restaurantes adoptem a prática do bring your own,  permitindo aos clientes consumir vinhos trazidos pelos próprios mediante o pagamento de uma corkage fee / taxa de abertura da garrafa.

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Let’s do the time warp again: Big Apple, Lisboa

Desviando a atenção das hamburguerias recentemente abertas em Lisboa e o tempo de antena dado às mesmas, decidimos ir experimentar o Big Apple. Escondido na Elias Garcia e ignorado por praticamente todas as listas de hamburguerias da capital, este restaurante pertence à antiga gerência dos extintos Great American Disasters (o único sobrevivente fica no Marquês de Pombal, desde há um par de anos sob nova batuta e bastante afastado do conceito original), beneficiando por essa razão de 35 anos de experiência a servir hamburgers e outros pratos sem complicações.

Bigapple_ementa

Sem rodeios: hamburgers listados por ingrediente.

Reparámos imediatamente num conjunto de pormenores que comprovam o conhecimento da causa: entre outros detalhes, a primeira frase no topo da ementa refere que a casa serve “the yummiest char-broiled hamburgers in Lisbon” – aliás, muita da informação na ementa é mantida em inglês –, todas as mesas estão munidas de um frasco de ketchup Heinz, as paredes repletas de cartazes antigos trazidos dos Estados Unidos (o nosso preferido foi o mapa em que o estado do Texas ocupa quase todo o território dos EUA).

A decoração, acreditamos, manteve-se inalterada ao longo dos 35 anos de existência desta casa: cá fora o toldo com o um logotipo bem representativo do design menos bom dos 70s; lá dentro os já referidos cartazes,  os sofás e o reboco “tirolês” das paredes, aquela superfície rugosa tão em voga naquela década. Se isso poderia à partida gerar alguma estranheza – que não gera – o atendimento e a qualidade da comida, bem como o facto de haver uma televisão grande para vermos um jogo da Premier League enquanto almoçamos, são factores que convidam a permanecer no Big Apple por mais tempo do que o normal numa hamburgueria, tal qual um diner americano; ou seja, not so fast food.

Apesar do tempo londrino que se fazia sentir, o restaurante encontrava-se praticamente cheio e com uma notável diversidade de clientes, o que confirmou a nossa suspeita de que o Big Apple é sobretudo frequentado por regulars da vizinhança: isto inclui famílias, um casal de idosos que optou por um prato do dia (bacalhau com salada) em vez das especialidades da casa, grupos de estudantes do IST e demais habitantes das Avenidas Novas.

Clientes de longa data.

Clientes de longa data. 

Os hamburgers estão disponíveis nos tamanhos “médio” e “grande”, podendo ser acompanhados por batatas fritas ou por uma batata assada com manteiga,  e uma escolha de dois molhos (uma senhora maionese caseira ou molho cor de rosa). No Big Apple a ementa é mais directa e menos criativa, pelo que os hamburgers são simplesmente listados de acordo com os respectivos ingredientes: queijo e bacon / hickory BBQ sauce / ovo / simples / chili. Há ainda espaço para clássicos norte-americanos como o Southern-style fried chicken, ribs e grilled steak.

Hickory BBQ : melhor molho de barbecue que já provámos.

Hickory BBQ : melhor molho de barbecue que já provámos. 

Optámos por um bacon & cheese mal passado e outro hickory BBQ sauce médio, ambos acompanhados por batata assada. O hickory BBQ sauce é um molho à base de ketchup, molho inglês, cerveja e vinagre, muito saboroso e surpreendemente leve quando comparado a outros molhos de BBQ mais pastosos e intensos. Ficámos agradavelmente surpreendidos pela qualidade dos pratos e, especialmente, como no Big Apple a fórmula mais tradicional e descomplicada atinge níveis de excelência nunca antes vistos (por nós) na capital: o hamburger é alto e feito com carne de vaca (100%, sem mistura) de excelente qualidade, temperada apenas com sal e pimenta; o pão é do tipo brioche, adocicado e fofo como um pão de hamburger deve ser (certamente há opções mais saudáveis e menos processadas, mas o prazer não é o mesmo); ambos vinham com uma folha de alface e uma rodela de tomate colocados na altura certa, o que garante que as primeiras dentadas serão sempre mais crunchy, ao contrário de tantas versões que, por questões de logística / linha de montagem, não cumprem com os timings correctos para a inclusão destes ingredientes. Os tempos de cozedura diferentes foram cumpridos à risca, e tanto o bacon e o queijo cheddar como o delicioso molho hickory BBQ estavam perfeitos.

Bacon & Cheese.

Bacon & Cheese.

No que diz respeito aos acompanhamentos, a batata assada foi uma revelação, especialmente tendo em conta o risco plausível de sobredosagem de hidratos de carbono e amido numa refeição que se previa pouco leve. O tamanho, a quantidade de manteiga (sem sal, um grande ponto a favor!) e a combinação com os molhos oferecidos fizeram com que esta batata assada merecesse uma menção honrosa nos nossos acompanhamentos preferidos de 2012.

Havendo ainda espaço na barriga e muita vontade de experimentar as sobremesas, optámos por uma tarte de maçã caseira com uma bola de gelado de baunilha (este extra foi pedido por nós) e um gelado de baunilha com chocolate derretido. A tarte era mesmo caseira feita em casa, uma “pie” daquelas fechadas, cobertas com massa, repleta de puré de maçã com a quantidade estritamente necessária de açúcar. Foi um final apoteótico para a nossa refeição, e outro grande ponto a favor do Big Apple. Com duas coca-colas, a refeição saiu a 12 euros por cabeça (pagos por MB), o que nos parece um preço mais do que justo tendo em conta a qualidade, o serviço, a rapidez e o ambiente muito acolhedor e descontraído que nos abrigou de um dia chuvoso e cinzento.

Uma sobremesa com altitude.

Uma sobremesa com altitude.

Para nossa desilusão, temos ouvido alguns relatos menos bons de amigos que jantaram no novo Honorato, tendo ficado desmotivados com o espaço, com o tempo de espera, com o barulho e com as multidões. Acreditamos que muitas destas questões advieram de uma sobre-exposição mediática (para a qual o Miudezas também acabou por contribuir). É um desafio gerir uma fórmula tão bem sucedida sem descarrilar e comprometer a reputação adquirida e a garantida de uma boa experiência aos clientes, e desejamos sinceramente que, entre uma gestão mais inovadora do layout da sala, a implementação de um sistema de reservas, a instalação de um quadro eléctrico que não interrompa o serviço da cozinha e obrigue a encerramentos permaturos, e o estabelecimento de um horário de funcionamento fixo e cumprido, o Honorato recupere o seu mojo e continue a servir os melhores hamburgers de Lisboa a novos e velhos clientes.

Nesse sentido, sugerimos à equipa do Honorato que rumem às Avenidas Novas ao Big Apple e que tomem nota da fórmula simples, tradicional e despretensiosa desta hamburgueria da velha guarda que continua a dar cartas. E, já agora, que se inspirem e considerem a inclusão de uma ou duas sobremesas, bem como a possibilidade de pagamento com Multibanco. Num dia com ou sem chuva, o Miudezas vai certamente voltar a viajar no tempo e regressar a este time-warp da Elias Garcia, rumo a hamburgers e batatas assadas (e outros pratos que ainda nos falta experimentar), que garantem, para já, a medalha de prata ao Big Apple no pódio das melhores hamburguerias da capital.

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Alentejo fora de série: Galito, Carnide

Tendo em conta que o Galito é um dos bons restaurantes de comida alentejana em Lisboa, onde não cabem mais do que 38 pessoas sentadas, não é de estranhar que já não houvesse lugares, quando num Sábado há algumas semanas lá fomos, perto das dez da noite. Tocámos à campainha e o rapaz que nos abriu a porta explicou que se tratava de uma noite especial em que, para além de uma ementa fixa – que espreitámos e nos pareceu muito apetecível (lebre, sopa de cação) –  havia uma prova de vinhos. O próximo jantar seria dali a um mês e a recomendação era que devíamos reservar o quanto antes. Eternos procrastinadores que somos no Miudezas, esperámos até ao próprio dia para tentar fazer a reserva, pelo que foi-nos logo dito que era impossível. Mas o universo queria que jantássemos muito e bem naquela noite e, com um golpe de sorte, ligaram-nos passadas umas horas a avisar de que houvera uma desistência.

O Galito fica na parte antiga de Carnide, na zona limítrofe entre a área que compreende estacionamentos possíveis para quem quer ir ao outro estádio ou ao Colombo (parar o carro não foi fácil, visto que era Sábado à noite e estávamos a poucos dias do Natal).  Lá dentro: um espaço com as paredes repletas de recortes de jornal com artigos justamente abonatórios (nunca antes vimos tantos num restaurante), legítimos e compreendendo várias décadas, devidamente emoldurados, bem como alguns certificados e diplomas com reconhecimentos mais oficiais. Aqui não só se come comida tradicional e de inspiração alentejana, feita com requinte e perfeccionismo, mas também se bebe e bem, e a quantidade de garrafas de vinho que podem ser vistas na sala é prova disso. De referir ainda que se pode fumar em toda a área do restaurante, sendo que, apesar de não se tratar de uma sala grande, o sistema de extracção de fumos funciona na perfeição.

Na realidade, mais do que uma ementa pensada e cuidada para o dia em questão, havia o apelo acrescido de uma prova de vinhos da Casa Burmester, que fez questão de enviar uma jovem emissária para introduzir e divagar sobre os vinhos junto dos clientes (bocejo nº 1). Deixamos um aviso à navegação: no Miudezas, não somos nem vamos tentar parecer ser aspirantes a sommelier. Lamentamos não ter tomado nota de pelo menos dois dos vinhos servidos, que gostaríamos de recomendar e repetir para nosso deleite, mas estávamos demasiado contentes e absorvidos pela experiência desta ocasião especial.

Mal nos sentámos, trouxeram-nos pão alentejano (se não for efectivamente alentejano, exigimos saber onde em Lisboa é que se pode encontrar pão deste) e azeitonas óptimas de boa proporção, bem como o primeiro vinho do cardápio: um branco seco que, por ser demasiado doce, não apelou a metade do Miudezas (a outra metade não se importou por aí além ainda que tivesse detectado algo estranho).

Favas com chouriço

Favas com chouriço.

O primeiro prato da noite foi favinhas com enchidos: um chouriço de porco tradicional avermelhado e outro presumivelmente de porco preto, um pouco mais escuro. Ambos deliciosos, com especial destaque para o segundo, pela textura rica sem ser demasiado gordurosa, e pela complexidade de sabores e condimentos. De seguida, o primeiro vinho branco da noite, demasiado frutado, que mais uma vez ficou aquém das nossas expectativas. Nesta altura, a representante da Casa Burmester dirigiu-se à plateia comensal e fez uma apresentação daquela produtora e dos vinhos que tínhamos bebido e iríamos beber, confirmando, numa conversa permeada por termos do domínio poético/enológico (bocejo nº 2), que o primeiro branco tinha sido misturado com 7-Up. Uma escolha infeliz que não pareceu incomodar a maioria dos presentes, ainda que grande parte deles fossem conhecedores e interessados no que diz respeito a assuntos do Vinho. Aliás, vários clientes fizeram questão de interromper a interlocutora com perguntas sobre o o tipo de castas e afins.

Ovinhos de codorniz com mais chouriço.

Ovinhos de codorniz com mais chouriço.

A nossa impaciência aumentava, mas não muito, porque passado pouco tempo chegou o segundo prato:  sete (quantidade cabálica – para duas pessoas) ovos de codorniz estrelados com igual número de rodelas de chouriço, dispostas perfeitamente num prato e polvilhadas com oregãos. O ponto alto da noite foi a sopa de bacalhau com espinafres e feijão branco que se seguiu. De natureza indiscutivelmente alentejana, num caldo repousavam o bacalhau em lombos desfiados, os espinafres cozidos e o feijão. Ficámos maravilhados com o balanço entre o caldo quente tingido por aromáticos como coentros, oregãos e uma prodigiosa hortelã da ribeira (que despertou em nós memórias de uma infância mais aventurosa e em comunhão com a natureza), o salgado intenso dos lombos de bacalhau e a textura dos espinafres que literalmente se derreteram na boca, complementados por feijão branco cozido no ponto. A acompanhar, um segundo vinho branco, mais seco e de qualidade muito superior ao que fora anteriormente servido.

Sopa de bacalhau com espinafres e feijão branco.

Sopa de bacalhau com espinafres e feijão branco.

Por aqui poderíamos ter ficado, se logo de seguida não nos tivessem trazido mais um copo de vinho, o primeiro tinto da noite, que funcionou em pleno. As pausas entre os pratos foram calculadas na perfeição, e pensadas à medida de quem gosta de comer muito e bem (a refeição, incluindo todos os passos aqui descritos, prolongou-se por mais de 3 horas). Entretanto, por entre mais um longo interlúdio da representante da casa Burmester (bocejo nº 3 – por esta altura e em resposta ao final da apresentação e ao cerimonioso “espero que tenham gostado”, as pessoas ao nosso lado não se contiveram e fizeram questão de afirmar que “a gente gosta é do Galito“), e mais um copo do anterior vinho, veio o prato principal: migas de batata com presas de porco preto. Com a fasquia tão elevada, era difícil ter feito melhor do que a sopa de bacalhau. Efectivamente, embora este prato estivesse também irrepreensivelmente cozinhado e empratado de forma criativa (ver foto), não conseguiu suplantar o anterior. As migas de batata eram saborosas, ligeiramente ácidas, e em quantidade abundante. Já a carne, cozinhada em vinha de alhos, ficou um tudo nada aquém do que o que esperávamos de presas de porco preto talvez pelo excessivo protagonismo do sabor naturalmente rico dessa carne. Excelente foi o segundo vinho tinto que nos serviram, muito mais encorpado do que o primeiro.

Migas de batata com presas de porco preto.

Migas de batata com presas de porco preto.

A coroar todo este banquete, foi-nos servida a sericaia que ficará na memória como possivelmente a melhor versão desta sobremesa que alguma vez tivemos oportunidade de provar. O bolo propriamente dito tinha uma textura macia, com o tamanho certo, com uma quantidade generosa de mel e ameixa de Elvas. A comoção foi tanta que decidimos documentar esta experiência como a vivemos, em vídeo. No fim, mais um vinho da casa Burmester, do Porto, vintage de 1989, que, apesar de bom, pouco ou nada acrescentou ao sabor doce sem ser enjoativo da sericaia que fechou esta refeição com chave de ouro.

Estes jantares especiais realizam-se uma vez por mês, sempre a um Sábado, e ficam a 35 euros por pessoa incluindo tudo o que aqui foi descrito. Nos restantes dias, não hesitamos em recomendar a sopa de beldroegas com queijo de cabra, os pezinhos de coentrada e a perdiz de escabeche. Vale mesmo a pena ir além da 2ª circular para provar o melhor do Alentejo no Galito.

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