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Miudezas na estrada I: Sara Barracoa, Famalicão

Na nossa memória desde uma refeição inesquecível em 2006, o restaurante Sara (mais conhecido como Sara Barracoa), levou-nos a Famalicão depois de um fim de semana de inverno passado em Guimarães, onde descobrimos a Adega dos Caquinhos e matámos saudades dos croissants mistos prensados com manteiga, entre outras maravilhas da pastelaria que só existem do Douro para cima.

sara_balcão

Como tínhamos tempo e nos apetecia passear, decidimos fazer os 33 kms que separam Guimarães de Famalicão não por uma SCUT, mas pela estrada nacional. E assim ficámos a saber da existência de localidades como Ronfe, Mugege, Joane, Vermoim e Brufe, onde em tempos terá havido uma indústria têxtil significativa e hoje em dia existem apenas detritos dessa era, que contribuem para uma paisagem algo fantasmagórica: demasiadas bombas de gasolina para a pouca afluência de carros, algumas fábricas desactivadas e outras em ruínas, restaurantes e demais estabelecimentos comerciais que fecharam portas para não mais reabrir.

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Entrámos no caos urbanístico que caracteriza Famalicão e de imediato rumámos ao centro, na esperança de mais um almoço memorável no Sara Barracoa. Abrimos as portas de madeira da casa de granito onde se situa o restaurante e, imediatamente, confirmámos que tudo se mantém igual desde a nossa última visita. Existe, aliás, uma aura de história e familiaridade que nos dá a ideia que houve coisas que nunca mudaram nesta casa, que abriu há mais de 170 anos, e foi frequentada em tempos por Camilo Castelo Branco. A Sara Barracoa esteve sempre nas mãos da mesma família e neste vídeo, o actual proprietário David Ferreira Dias (bisneto do fundador) explica a origem do nome do estabelecimento enquanto casa de ferrador, onde viajantes vinham mudar as ferraduras dos cavalos, e a transição gradual para casa de pasto. Como seria de esperar, os pratos servidos na Sara Barracoa respeitam a tradição local, bem como o livro de receitas da família.

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Às 14h00, o restaurante já só tinha poucas mesas vagas na primeira das duas salas, sendo que a que fica na parte de trás do restaurante (afastada da entrada, mais acolhedora e com bastante mais luz natural) estava completamente cheia. Sentámo-nos e, depois de uma recepção afável por parte da mulher do Sr. David, o dilema com que nos deparámos consistia em optar por revisitar as especialidades que já tínhamos provado (vitela e rojões), ou experimentar pratos novos. Olhámos em redor para ver o que se comia e optámos pelo cabrito e pelos filetes de pescada. Por muito que estivéssemos ansiosos por voltar a provar a comida deste sítio, havia pormenores demasiado importantes para serem ignorados e que exigiam a nossa atenção: a perspectiva completamente errada de uma ombreira de porta (inspiração directa para o set design do filme Beetlejuice?), os quadros desalinhados ou as pipas de vinho tinto e branco atrás do balcão.

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Os filetes vieram numa travessa, ladeados por dois pastéis (lá em cima chamam-se bolos) de bacalhau. Em comparação com os restantes acompanhamentos – uma salada russa com maionese caseira  – os bolinhos de bacalhau acabaram por parecer uma escolha pouco habitual e quase questionável (o bacalhau é amigo da pescada?), especialmente porque estavam frios, contrastando com a temperatura dos filetes. Já os protagonistas deste prato estavam acabados de fritar, estaladiços e com um travo a sumo de limão, capazes de fazer frente aos melhores filetes que provámos tais como os do ARVC em Lisboa, d’A Cabana na Zambujeira, e do Maria Moita em Leixões.

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De seguida veio o cabrito, uma dose avantajada que acabámos com algum esforço, muita gula e total satisfação. Apesar de estar muito bem assado, no tradicional forno a lenha da Sara Barracoa, o cabrito não impressionou tanto como os filetes nem como a vitela que lá tinhamos comido há uns anos (das carne mais tenras que alguma vez provámos). A acompanhar, batatas assadas e um arroz solto e altamente saboroso, juntamente com uma salada e uns deliciosos grelos salteados – na Sara Barracoa, não se poupa na quantidade nem na qualidade dos acompanhamentos.

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A acompanhar todas as refeições que fazemos nestas paragens está o vinho verde tinto, servido em malgas: de cor sanguínea e a remeter para cenários do Velho Testamento, a efervescência e a acidez deste vinho poderá causar alguma estranheza a princípio (e alguma azia aos estômagos mais sensíveis), mas sabemos que não existe outra bebida possível para acompanhar a comida minhota, seja vitela, rojões ou papas de sarrabulho.

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No fim, ainda houve espaço para um delicioso e inatacável pudim de ovos. Foi um verdadeiro banquete, que em nada beliscou as boas recordações que tínhamos da Sara Barracoa, e mal podemos esperar pela próxima ocasião para reavivarmos a memória de como se come (muito) bem nesta zona do país.

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2012 no retrovisor

Já com uma distância saudável da febre das listas de fim de ano, queremos partilhar com os leitores do Miudezas o melhor (e o pior) que comemos em 2012.

O melhor:

Filetes de pescada no Maria Moita, Leça da Palmeira – a magia do panado ou os melhores e mais frescos filetes de pescada que alguma vez provámos.

Robalo no Salta-ó-Muro, Matosinhos – a perfeição imaculada vinda do alto mar para a mesa de uma tasca que bate a milhas muitos restaurantes de peixe em qualquer sítio do mundo.

Sarapatel no Zuari, Lisboa – red-hot e avinagrado, a combater qualquer esquisitice que se possa sentir em relação a miudezas.

Sopa de peixe no Granhão, Carvalhal / Comporta – no Alentejo encostado ao Atlântico, algures entre a sopa alentejana e a caldeirada. Uma autêntica refeição, de chorar por mais.

Amêijoas à bulhão pato com torradas de pão alentejano e muita manteiga no Gervásio, Brejos da Carregueira – o que apetece comer depois de oito horas na praia.

Frigideira do Chefe no Búzio, Praia das Maçãs, Sintra – arroz de mar infalível.

Chocos com tinta na Toscana, Lisboa – o “Buraquinho” ficou de cara lavada em 2012, mas mantêm-se inalterados a qualidade, os preços, bem como o sistema métrico e o léxico exclusivos a este estabelecimento.

Lombo de porco panado em nozes com creme seguido de vodka aromatizada com aipo na Tapadinha, Lisboa – sabores ricos sem peso, num restaurante onde a qualidade é garantida há quase 20 anos.

Bonsai – pela excelência, pela consistência, pelo serviço acolhedor e pelos almoços de 10 euros.

Vitela assada e batatas na Adega dos Caquinhos, Guimarães – carne que se derrete na boca e vinho verde tinto que tinge os dentes.

Adega dos Caquinhos

Sericaia no Galito – bolo dourado e feito na hora, pontuado por igualmente dourado mel e ameixa de Elvas.

Leite creme com doce de abóbora no Toma Lá Dá Cá, Lisboa – criação brilhante de inspiração transmontana, numa dose generosa, sem cair no abismo do enjoo.

O Falcão e as batatas fritas do Honorato, Lisboa – o combo hamburger com batatas fritas que melhor resulta na capital.

A sopa de bolas de peixe do Fu Jian, Carnaxide – uma especialidade rara do sul da China que nunca imaginámos encontrar em Portugal – muito menos neste subúrbio lisboeta: caldo avinagrado perfeito a contrastar com as bolas de pão chinês recheadas com uma mistura extremamente salgada e forte de carne de porco e peixe.

Fu Jian

Fu Jian

Dobrada na Tasca do Gordo, Lisboa – até hoje não provámos melhor. Capaz de converter os mais cépticos.

Francesinha do Café Santiago, Porto – é raro ver um café/restaurante com capacidade para 67 pessoas a rebentar pelas costuras, com toda a gente sem excepção a deliciar-se com o mesmo prato: uma das melhores francesinhas da cidade do Porto.

Café Santiago

Café Santiago

O melhor lá fora:  

Presunto de pato na Taberna La Dolores, Madrid – descoberta surpreendente de cor vermelha e brilhante e textura extremamente suave, a acompanhar cerveja de pressão impecavelmente tirada.

Xiao long bao / soup dumplings no Leong’s Legends, Chinatown, Londres – afinal gostamos mais do caldo dentro do dumpling e não do inverso.

Leong's Legends

Leong’s Legends

Kottayam Fish / Malabar Prawn Curry no Ganapati, Camberwell, Londres – filetes de dourada com tomate, gengibre, manga verde, e ervas; caril de camarão com masala e um pão de massa folhada salgada maravilhoso chamado Kerala Paratha, a acompanhar pickles vários feitos à mão; numa refeição divinal com os sabores do Sul da India.

As costeletas de borrego no Mangal II, Dalston, Londres – Turkish delights em doses generosas com belíssima salada e cerveja do deli da esquina.

Mangal II

Mangal II

Kip Kerie Filet Rôti no Warung Mini, Surinaams Restaurant, Roterdão – picante ao ponto de nos pôr a suar, levantou-se um véu sobre a comida do Surinam, sobre a qual queremos descobrir muito mais.

Suriname

Warung Mini

Rôti de porc no Chez Navarre, Toulouse – lombo de porco assado como manda a tradição francesa,  num restaurante familiar que abre as portas ao almoço para um buffet livre mais económico.

Chez Navarre

Chez Navarre

Incontáveis pints de diferentes tipos de real ale, mais a memorável sandwich de porco assado com puré de maçã, piccalili e mostarda picante no Southampton Arms, Londres – trocámos o jantar por uma tarde prolongada no nosso pub preferido e não nos arrependemos.

Southampton Arms

Southampton Arms

Prémio “assim até nós seríamos vegan”: udon frio em caldo quente à base de miso de noz no Koya, Londres.

Comer com os olhos em Copenhaga : Smørrebrød (uma espécie de sandwiches tradicionais com variadíssimos conteúdos) no Christianshavns Smørrebrød e o Kartoffel kage (especialidade dinamarquesa com massa pão, creme de pasteleiro e polvilhada com chocolate em pó) no Lagkagehuset, ambos os sítios no perímetro de Christiania.

Copenhaga

Christianshavns Smørrebrød

Lagkagehuset

Lagkagehuset

O Japão menos longe: a Immenmanstrasse em Düsseldorf e o almoço no Takumi (negui shio ramen com nitamago à parte).

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Takumi

Takumi

O pior:

Menos estilo e mais substância – as pressões da era moderna, que se fazem sentir nas remodelações e subsequente perda de identidade de muitos restaurantes lisboetas.

O artigo da Time Out sobre o refeitório do Templo Hindu em Telheiras.

O plágio, quando o que é preciso é ideias originais, ou a praga das Hamburguerias do Bairro.

Os efeitos menos bons da mediatização desproporcional de sítios que se afirmam como artesanais – votos de uma recuperação rápida para o Honorato.

A fechar 2012, Lisboa vandalizada com os cartazes freira do soft-porn do Guilty.

O último pequeno-almoço fora de casa de 2012 (e provavelmente de sempre) no Café do Monte – uma tragédia em três actos, começando pela marca de baton na chávena de chá mal lavada, passando pelo cesto de torradas frias servidas sem pratos e culminando no bacon mal cozinhado.

A não existência de um pequeno almoço inglês / brunch decente por menos de 10 euros na capital.

A aldrabice do mercado fusão do Martim Moniz e a legislação que impede a proliferação de street food quando esta é a tendência mais forte e a produzir comida mais entusiasmante nas capitais europeias – e assim deveria ser numa das cidades da Europa que mais convida a estar na rua.

What could have been: o fim abrupto das roulottes e a margem de melhoramento e modernização que a comida lá servida ainda tinha pela frente (queremos acreditar).

Restaurantes de sushinês e o vago universo da comida “asiática” servida no Assuka e no Duck Tale – este último em particular com uma péssima relação preço-qualidade, um serviço confrangedor, e o desplante de apresentar um vinho 5 vezes mais caro do que na nossa garrafeira de bairro.

Finalmente e a propósito deste último, em jeito de desejo para 2013: que muitos mais restaurantes adoptem a prática do bring your own,  permitindo aos clientes consumir vinhos trazidos pelos próprios mediante o pagamento de uma corkage fee / taxa de abertura da garrafa.

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