Tag Archives: Restaurante

Miudezas na estrada I: Sara Barracoa, Famalicão

Na nossa memória desde uma refeição inesquecível em 2006, o restaurante Sara (mais conhecido como Sara Barracoa), levou-nos a Famalicão depois de um fim de semana de inverno passado em Guimarães, onde descobrimos a Adega dos Caquinhos e matámos saudades dos croissants mistos prensados com manteiga, entre outras maravilhas da pastelaria que só existem do Douro para cima.

sara_balcão

Como tínhamos tempo e nos apetecia passear, decidimos fazer os 33 kms que separam Guimarães de Famalicão não por uma SCUT, mas pela estrada nacional. E assim ficámos a saber da existência de localidades como Ronfe, Mugege, Joane, Vermoim e Brufe, onde em tempos terá havido uma indústria têxtil significativa e hoje em dia existem apenas detritos dessa era, que contribuem para uma paisagem algo fantasmagórica: demasiadas bombas de gasolina para a pouca afluência de carros, algumas fábricas desactivadas e outras em ruínas, restaurantes e demais estabelecimentos comerciais que fecharam portas para não mais reabrir.

sara_sala jantar 3

Entrámos no caos urbanístico que caracteriza Famalicão e de imediato rumámos ao centro, na esperança de mais um almoço memorável no Sara Barracoa. Abrimos as portas de madeira da casa de granito onde se situa o restaurante e, imediatamente, confirmámos que tudo se mantém igual desde a nossa última visita. Existe, aliás, uma aura de história e familiaridade que nos dá a ideia que houve coisas que nunca mudaram nesta casa, que abriu há mais de 170 anos, e foi frequentada em tempos por Camilo Castelo Branco. A Sara Barracoa esteve sempre nas mãos da mesma família e neste vídeo, o actual proprietário David Ferreira Dias (bisneto do fundador) explica a origem do nome do estabelecimento enquanto casa de ferrador, onde viajantes vinham mudar as ferraduras dos cavalos, e a transição gradual para casa de pasto. Como seria de esperar, os pratos servidos na Sara Barracoa respeitam a tradição local, bem como o livro de receitas da família.

sara_balcão1

Às 14h00, o restaurante já só tinha poucas mesas vagas na primeira das duas salas, sendo que a que fica na parte de trás do restaurante (afastada da entrada, mais acolhedora e com bastante mais luz natural) estava completamente cheia. Sentámo-nos e, depois de uma recepção afável por parte da mulher do Sr. David, o dilema com que nos deparámos consistia em optar por revisitar as especialidades que já tínhamos provado (vitela e rojões), ou experimentar pratos novos. Olhámos em redor para ver o que se comia e optámos pelo cabrito e pelos filetes de pescada. Por muito que estivéssemos ansiosos por voltar a provar a comida deste sítio, havia pormenores demasiado importantes para serem ignorados e que exigiam a nossa atenção: a perspectiva completamente errada de uma ombreira de porta (inspiração directa para o set design do filme Beetlejuice?), os quadros desalinhados ou as pipas de vinho tinto e branco atrás do balcão.

sara_filetes3

Os filetes vieram numa travessa, ladeados por dois pastéis (lá em cima chamam-se bolos) de bacalhau. Em comparação com os restantes acompanhamentos – uma salada russa com maionese caseira  – os bolinhos de bacalhau acabaram por parecer uma escolha pouco habitual e quase questionável (o bacalhau é amigo da pescada?), especialmente porque estavam frios, contrastando com a temperatura dos filetes. Já os protagonistas deste prato estavam acabados de fritar, estaladiços e com um travo a sumo de limão, capazes de fazer frente aos melhores filetes que provámos tais como os do ARVC em Lisboa, d’A Cabana na Zambujeira, e do Maria Moita em Leixões.

sara_cabrito2

De seguida veio o cabrito, uma dose avantajada que acabámos com algum esforço, muita gula e total satisfação. Apesar de estar muito bem assado, no tradicional forno a lenha da Sara Barracoa, o cabrito não impressionou tanto como os filetes nem como a vitela que lá tinhamos comido há uns anos (das carne mais tenras que alguma vez provámos). A acompanhar, batatas assadas e um arroz solto e altamente saboroso, juntamente com uma salada e uns deliciosos grelos salteados – na Sara Barracoa, não se poupa na quantidade nem na qualidade dos acompanhamentos.

sara_malga1

A acompanhar todas as refeições que fazemos nestas paragens está o vinho verde tinto, servido em malgas: de cor sanguínea e a remeter para cenários do Velho Testamento, a efervescência e a acidez deste vinho poderá causar alguma estranheza a princípio (e alguma azia aos estômagos mais sensíveis), mas sabemos que não existe outra bebida possível para acompanhar a comida minhota, seja vitela, rojões ou papas de sarrabulho.

sara_pudim

No fim, ainda houve espaço para um delicioso e inatacável pudim de ovos. Foi um verdadeiro banquete, que em nada beliscou as boas recordações que tínhamos da Sara Barracoa, e mal podemos esperar pela próxima ocasião para reavivarmos a memória de como se come (muito) bem nesta zona do país.

Anúncios

2 comentários

Filed under Uncategorized

A Serra na Cidade: Restaurante O Serrano, Ajuda

O Miudezas anda numa fase particularmente carnívora, pelo que pareceu-nos óbvia a escolha do restaurante O Serrano quando, há uns dias, tivemos de rumar a oeste, mais especificamente até à zona da Ajuda. Mais conhecido por ser o local onde alguns familiares se juntam para um almoço mensal (no dia do cozido, à quarta-feira), O Serrano serve, entre outros pratos, especialidades da Beira Baixa, mais especificamente da junta de freguesia de Orjais, concelho da Covilhã, há mais de 30 anos.

ementa

Aproveitamos o facto de O Serrano ter um site acessível, honesto e informativo para marcar a estreia dos posts mais resumidos no Miudezas. Não há nada a acrescentar e tudo a confirmar: aqui come-se realmente muito bem, em doses muito generosas e a preços muito convidativos. Os produtos são frescos e regionais, e o serviço é sem pressas, familiar e muito simpático. A decoração não sofreu grandes alterações desde a abertura – gostamos particularmente da sinalética usada nas casas de banhos.

wc_ladies wc_gents

Optámos por um prato do dia e por uma das especialidades da casa: ervilhas com dois ovos bem escalfados (leia-se mal passados, com a gema bem runny como convém), e o clássico tacho de arroz de carqueja para partilhar. As ervilhas estavam apuradíssimas, com um molho rico e adocicado q.b., sendo acompanhadas por tiras finas de presunto de excelente qualidade, em vez dos habituais cubos de toucinho pouco apreciados pelas nossas artérias.

ervilhas_ovos

O arroz de carqueja é um prato típico da Beira Baixa, reconfortante e com um aroma muito característico – uma espécie de arroz guisado leve e anisado, com entrecosto e morcela; estes sabores são elevados ao supra sumo da experiência serrana através da fragrância doce da carqueja, que é utilizada não só para temperar a carne como também na água onde o arroz é cozinhado. Não conhecemos outro sítio em Lisboa (nem a menos de 1500 metros de altitude) que sirva este prato, mas aceitamos sugestões.

O restaurante encerra ao Domingo e à Segunda-feira, e está temporariamente sem poder aceitar pagamento por cartão (queremos acreditar que é temporário, a gerência fez questão de espalhar vários avisos pelas paredes); mas há uma caixa MB a poucos metros de distância, descendo a Calçada do lado direito. Já referimos a dimensão das doses mas, a título ilustrativo, podemos confirmar que uma dose de arroz de carqueja e meia dose de ervilhas dão para alimentar 4 pessoas que gostam de repetir, pela módica quantia de 19,50. Com vinho da casa, água, sobremesas e café, é pouco provável que o preço de uma refeição n’O Serrano exceda os 10 euros por cabeça. Restam dúvidas sobre onde almoçar esta semana?

3 comentários

Filed under Uncategorized

Lira d’Ouro: tão longe e tão perto

Numa era em que estabelecimentos tradicionais que servem boa comida portuguesa escasseiam, para dar lugar à cozinha global mais indistinta e de qualidade questionável (kebabs, pizzas, hamburgers, sushinês, comida de fusão), é sempre surpreendente quando vamos a um restaurante e ficamos com a impressão de que estamos a comer em casa da nossa avó. Não só pela qualidade aconchegante e familiar, mas também porque nos é servida comida tradicional portuguesa confeccionada com critério e dedicação.

Ementa

Assim é o restaurante Lira d’Ouro em Lisboa, situado numa transversal da Rua da Escola Politécnica, mais precisamente no nº 10 da Rua Nova de S. Mamede, em frente ao largo da igreja. Sendo este estabelecimento já conhecido por uma das metades do Miudezas (que recorda e recomenda o arroz de rim ao almoço), chegámos para jantar por volta das 21h a uma quarta-feira, e deparámo-nos com uma ampla sala de jantar completamente vazia. O que não é totalmente de estranhar, tendo em conta a localização desta casa que aqui se encontra discretamente encurralada desde os anos 60, entre o Salitre, o Príncipe Real e o Rato. Trata-se claramente de uma zona que vive e funciona sobretudo no horário de expediente, sendo que a actividade dos restaurantes da zona se concentra sobretudo no serviço de almoço. De fundo o som do Guimarães – Braga para a taça a ecoar pela sala rectangular, transmitido numa televisão que era suficientemente grande para nos levar a recomendar o Lira d’Ouro a quem gosta de ver futebol à refeição (facção não-fumadores).

Liradouro8

Consta que Alexandre O’Neill foi frequentador assíduo do Lira d’Ouro e é fácil perceber porquê, mesmo com o passar dos anos. Para além da cordialidade comedida dos empregados, o ambiente destaca-se por ser discreto e pacato, num espaço físico simples e de assinalável bom gosto. O Lira d’Ouro mantém intactos traços originais como a porta de madeira antiga, as cadeiras com as costas de madeira do tipo escola primária, balcão de mármore, etc. As ementas do dia continuam a ser redigidas na máquina de escrever.

Canja

Começámos por uma canja de galinha que cumpria todos os preceitos a nível de sabor, textura, temperatura, quantidade de miudezas, e presença de uma folha de hortelã para cortar a (pouca) gordura. De seguida, optámos pelas ovas de pescada cozida com batatas e legumes e por uma dose de iscas com elas.  As ovas não eram as melhores e mais frescas que provámos mas estavam bem cozidas; já os acompanhamentos estavam excelentes, com especial destaque para as batatas cozidas. É facil esquecer o potencial de uma batata de boa qualidade, com o tempero certo e o tempo de cozedura perfeito, mas ficámos muito felizes ao ser relembrados a cada garfada. O vinho branco a acompanhar era decente e honesto, e muito apetecível tendo em conta o preço. As iscas passaram o teste do Miudezas: cortadas bem fininhas e com batatas fritas às rodelas ainda mais finas, regadas com um molho rico e muito saboroso. Rematámos a refeição com um leite de creme caseiro, queimado na hora como dita a regra, que estava muito bom.

Em suma, na Casa Lira d’Ouro continuamos a encontrar tudo no sítio: serviço e refeições de qualidade inquestionável, pratos deliciosos e sem invenções, como em casa da nossa avó. Dificilmente haverá na zona outro sítio de comida tradicional portuguesa em que a qualidade seja tão consistente e a preços tão baixos: pela refeição acima descrita, pagámos menos de 9 euros por pessoa. Deixamos a recomendação a quem quiser jantar bem antes ou depois de uma sessão na Cinemateca,ou simplesmente a quem estiver à procura de uma óptima refeição num ambiente de outros tempos, a contrastar com o ambiente frenético de alguns restaurantes mais movimentados nas zonas vizinhas. Encerra aos Domingos.

Liradouro11

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized

O melhor do mar sobre o rio: Restaurante da Associação Regional de Vela do Centro

No que toca a comida, é fácil ser-se taxativo quando se sabe muito bem do que se gosta. Mas é consenso geral (e se ainda não é, devia ser), que Portugal tem o melhor peixe do mundo. É frequente ouvir falar de chefes com estrelas Michelin em França ou Itália que usam peixe proveniente da nossa costa. Tendo em conta que ambos esses países têm também uma longa costa e amplo acesso ao mar, aliado a uma cozinha mais reputada, influente e divulgada do que a nossa, isto torna-se especialmente assinalável. A nossa costa é generosa e oferece uma variedade infindável de peixe, marisco e tudo o que o mar e a areia têm de bom, sendo que a nossa cozinha brilha por saber elevar a qualidade destes ingredientes com simplicidade e certeza. E depois existe o bacalhau, que é toda uma outra história paralela e aparentemente inexplicável, para quem não sabe que nós somos em muitos aspectos um povo inexplicável, mas isto não é o assunto das linhas que se seguem.

Dentro dos nossos restaurantes de eleição em Lisboa, o da Associação Regional de Vela do Centro tem provavelmente um dos nomes menos cativantes. Mesmo enquanto sigla, a sua enunciação (ARVC) facilmente nos faz parecer ter problemas graves de dicção e complica o simples acto de o recomendar verbalmente a um amigo. Mas o facto de o nome deixar transparecer essa despretensão e falta de apelo marketizável é para nós mais um ponto a favor. Isto porque a comida que aqui se serve é também um pouco assim: simples e despretensiosa, mas inatacável. Aqui come-se do melhor peixe que há em Lisboa, sem grandes artifícios e invenções, à boa e velha maneira portuguesa. Apesar de ainda haver alguma oferta de óptimo peixe a preços praticáveis na capital (vamos escrever em breve sobre a Toscana, onde regressámos recentemente e fomos surpreendidos por uma senhora remodelação), Lisboa não é exactamente *o* local de eleição para se consumir peixe fresco, nem dos mais acessíveis: desde Moledo a Cabanas de Tavira, passando por Matosinhos, Sesimbra, Setúbal, e outras localidades, as possibilidades e a oferta ao longo do nosso rectângulo à beira-mar plantado são incontáveis, em ambientes e com um leque de preços para todos os gostos e bolsos.

arvc_vista

Varanda com vista.

Na doca de Belém, no meio de pelo menos mais dois ou três restaurantes (um de comida brasileira, outro dentro do mesmo género ainda por desbravar, mas bem referenciado por pessoas em quem confiamos) encontramos o restaurante do ARVC. Subimos a um primeiro piso dum edifício que foi em tempos um dos pavilhões da exposição do Mundo Português, e ao subir olhando pelas vidraças para dentro e para baixo, vemos o que agora é uma espécie de cemitério para barcos e demais parafernália náutica, mas que estranhamente ainda mantém intacto um mural que celebra a descoberta do caminho marítimo para a Índia. Essa justaposição cria logo um certo maravilhamento em nós, não só pelo que a experiência tem de insólito e anacrónico, mas porque sabemos que se aproximam a passos largos os melhores filetes de peixe galo que já comemos em Lisboa.

Já cá em cima, passamos uma porta de alumínio com um mapa gigante com variadíssimas espécies de peixe, gasto pelo tempo e com letra demasiado pequena para ficarmos a ler com atenção. Por trás da porta, deparamo-nos com uma zona de café pequena e estreita (onde também se come, mais rápido e mais barato) e um balcão, um pequeno viveiro para sapateiras e santolas, e um quadro com as especialidades do dia. E para este quadro olhamos de relance, sempre com alguma ansiedade à espera de percebermos se ainda há os tais filetes, a especialidade que tantas vezes nos leva à ARVC, e que nem sempre está disponível, tal é a procura.

Quando os filetes já foram consumidos por clientes que acordam mais cedo do que nós, e quando o saldo na conta assim nos permite, não hesitamos e seguimos caminho para a varanda coberta (há quem lhe prefira chamar marquise), onde nos sentamos numa sala onde o Tejo é inevitável. Entre um robalo do mar para dividir por 4 a 6 pessoas, cabeça de garoupa, filetes de outras variedades, dourada, salmonetes e afins não há muito por onde inventar.

arvc_amêijoas

Bivalves divinais.

Foi assim que nesta tarde de Domingo, depois de sentados, optámos por umas amêijoas à bulhão pato e por um robalo para dividir. O couvert é composto por mexilhões em cebolada frios, salada de polvo, um queijo salvo erro de Serpa, um pão pouco entusiasmante (não é habitual), manteiga e azeitonas. As amêijoas estavam deliciosas como de costume: textura, tamanho e sabor apetecíveis, molho com a consistência certa e em abundância, com as respectivas reservas de pão com manteiga infindáveis para demolhar no que restava da travessa destes bivalves.

Image

In medias res.

Algum tempo mais tarde, não pouco, visto que o restaurante estava para lá de cheio e caminhávamos rapidamente para as três da tarde, veio o robalo. Escalado e pronto a ser consumido, não tão opulento quanto a anterior versão que o senhor nos trouxe fresco à mesa antes de seguir para a grelha. A acompanhar, batatas cozidas com pele, bróculos cozidos na perfeição e rodelas de limão e açorda de ovas. Nada mais simples do que isto. O peixe, de uma frescura a qualquer prova, estava impecavelmente grelhado e, ainda que para ser consumido por quatro pessoas (convém referir que já depois das entradas, das amêijoas e de uma quantidade gargantuana de pão), parecia não terminar; descobrindo-se sempre pequenos filetes quando dava a ideia de já não existir ali nada para comer. Contudo, e no meio de tanta coisa certa, parece-nos errado usar um recipiente de vidro em forma de garrafa de xarope para servir o azeite. O que é feito do tradicional galheteiro de ferro?

arvc_tarte

Erro de casting.

Ainda numa nota menos positiva: porque nos apetecia prolongar o extâse induzido pelo robalo escalado, optámos pelas sobremesas. Uma das com que o Miudezas se deparou foi uma tarte de lima que era muito pouco entusiasmante. Com uma apresentação um tanto ou quanto artificial, marcada pelo splash ondulante e absurdamente desnecessário de caramelo líquido, toda ela já um pouco seca, quer no recheio propriamente dito, quer na base, tivemo-nos de refugiar no café para limpar o palato.

Ainda assim, nada que vá beliscar a memória de um robalo tão nobre como aquele com que nos deliciámos no restaurante da ARVC, nem deixar de nos fazer ansiar por uma próxima visita.

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized

Venerável: Bonsai, Lisboa

Temos o maior respeito por estabelecimentos coerentes e de identidade forte, que não cedem a pressões de modernização e reinvenção e que, por essa razão,  nunca surpreendem pela negativa. Quem entra na recta final da Rua da Rosa, quase a chegar à D. Pedro V, e atravessa as portas de ferro que conduzem ao pequeno espaço de decoração sóbria e tradicional, onde o tatami é o elemento predominante, sabe com toda a certeza que irá (re)encontrar um desses sítios. Ambiente discreto e civilizado, um atendimento dedicado e cordial como só os nipónicos sabem prestar, Sonatas de Mozart interpretadas por Mitsuko Ushida ou Maria João Pires em loop, um ou mais clientes japoneses ao balcão e, acima de tudo, uma refeição irrepreensível.

Pelo que conhecemos, o Bonsai proporciona a experiência gastronómica japonesa mais genuína no nosso país, atingindo também o equilíbrio mais interessante entre qualidade e preço. Louvamos outras ofertas mais tradicionais e menos sushi lounge na capital – Ken Ichi, Tomo, os jantares e almoços da Yuko no Kome Escondido; contudo, nenhuma destas opções oferece a qualidade e a diversidade do Bonsai a um preço tão justo. Apesar de sermos orgulhosamente omnívoros, é também importante referir as variadas e saborosas opções vegan e vegetarianas disponíveis neste restaurante, coisa incompreensivelmente rara no panorama dos estabelecimentos asiáticos na capital (cough cough, Hong Kong Grande Palácio).

Pratos do dia

Pratos do dia: a ementa escondida.

Para além da ementa variada que contempla várias especialidades da cozinha japonesa – sushi, tempura, sukiyaki, sopas e caldos, udon –, o Bonsai tem sempre uma oferta interessante e sazonal de daily specials. É no quadro de cortiça coberto por tiras de papel picotadas e pinceladas com caracteres japoneses (e com a respectiva tradução em português), que se encontram alguns dos melhores pratos servidos neste restaurante. Desde as bolinhas fritas de polvo com maionese, até aos espinafres frios com sésamo e miso, passando ainda pelo caldo de amêijoas da Ria Formosa com saké, não esquecendo a barriga de porco com mostarda picante, o tataki e o tártaro de atum gordo, recomendamos que se salte sempre a barreira do menu e se solicite o quadro de cortiça (a ementa escondida), garantindo dessa forma uma refeição mais diversificada e estimulante. Por exemplo, um dos pratos de inverno que estará disponível durante as próximas semanas é o oden, que é um prato à base de um caldo e de diversas iguarias escalfadas no mesmo: almôndegas de peixe, triângulo de claras, gelatina de algas e sésamo, ovo beige (à falta dos termos exactos, optámos por improvisar para fins puramente ilustrativos). Outras iguarias disponíveis desde que o tempo frio chegou para ficar incluem o uni (ovas de ouriço do mar, uma iguaria que pesa no bolso mas que deverá ser provada pelo menos uma vez na vida) e o wasabi verdadeiro (a cor é mais militar e menos atómica, a textura é fibrosa, o picante e as vibrações nasais: incomparáveis).

Oden

Oden: cozido japonês.

Quanto aos pratos clássicos que constam sempre no menu, recomendamos sem hesitação o sukiyaki, que é uma espécie de fondue japonês à base de caldo dashi servido num pequeno caldeirão, onde no fundo encontramos talos de couve estaladiça, tofu e diferentes tipos de cogumelos, e onde na superfície vão sendo cozinhadas fatias finas de carne de vaca. Estes ingredientes são embebidos numa mistura de gema de ovo servida à parte antes de serem cozinhados no caldo, sendo que todo o ritual proporciona sabores e texturas diferentes à medida que se vai avançando na refeição. O caldo que resta no final, enriquecido com os sucos libertados pelos variados ingredientes, é para nós uma espécie de poção que concentra as propriedades mais mágicas e cativantes do umami (o 5º sabor entre o salgado e o amargo) e pela qual suspiramos regularmente. Também o peixe servido no Bonsai é de excelente qualidade, fresquíssimo e correctamente cortado, e nesse sentido aconselhamos o chirashizushi, que é um prato de arroz coberto por diferentes tipos de sashimi, ovas de salmão, tamago (omelete japonesa), algas trituradas e hana ebi (que é como quem diz camarão em pó, uma espécie de botarga menos intensa e mais salgada, que dá um ligeiro e agradável sabor salgado ao arroz). Por último e entrando na recta das sobremesas, para quem se contenta com níveis de açúcar muito aquém dos da doçaria conventual, não podemos deixar de recomendar os levíssimos gelados japoneses, com ou sem doce de feijão (aproveitamos para aplaudir a decisão de deixarem de servir os gelados com uma sprayzada de chantilly de lata), com sabores como chá verde e sésamo.

Chirashizushi

Chirashizushi: leveza abundante.

O Bonsai pratica preços especiais à hora de almoço (destacamos o chirashizushi redux com menos sashimi e mais cogumelos shitake e tamago + sopa miso por apenas 12 euros), e disponibiliza também um menu troikiano a 10 euros, composto por sopa miso, salada de couve, miso e limão, 2 peças de sashimi ou sushi, prato do dia e café. Naquele que será provavelmente o único comentário menos positivo a um dos nossos locais de eleição, admitimos que estes almoços do dia têm sido muito repetidos, pouco diversificados e bastante menos saudáveis do que as restantes opções da carta: semana após semanas, as opções têm sido o hamburger japonês, tiras de porco com arroz e molho de gengibre e alho, o curry udon de vaca (delicioso mas de logística impossível para quem tem de regressar ao escritório e se esqueceu da gabardine em casa, por causa das inevitáveis nódoas), salmão teryiaki, ossinhos de frango frito e tempura de raiz de lótus.

Almoço

Fragmentos de almoço de 10€: tiras de porco com gengibre e alho francês.

Em todo o caso, se compararmos os preços praticados pelo Bonsai a qualquer buffet ou rodízio de sushinês, a escolha parece-nos óbvia. Embora gostemos de comer em paz e relativo silêncio (apesar de no Bonsai a música clássica ser inevitável, conforme referimos acima), impressiona-nos a fraca adesão dos almoçantes lisboetas a esta oferta tão convidativa, ainda para mais tendo o Bonsai uma página no Facebook bastante funcional e constantemente actualizada – o prato do dia é aqui divulgado diariamente antes do meio dia, sendo que o restaurante começa a servir almoços às 12h30. Felizmente, esta situação não se verifica tão pronunciadamente durante o período do jantar, sendo inclusive recomendável reservar antecipadamente.

Venerável é a coerência, a qualidade, o serviço e a experiência de uma refeição no Bonsai e mal podemos esperar pela próxima visita.

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized