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Quand la Chine s’éveillera, as nossas barrigas vão agradecer: Tian Yi Jiao, Lisboa

Quando há uns meses escrevemos sobre a falta de restaurantes chineses legítimos e legais (por legais entenda-se sem serem clandestinos), estávamos longe de imaginar que já existia na capital um estabelecimento que viria a responder a todas as nossas preces. Aberto há 7 meses e especializado em pratos da província de Zhejiang (foi o que percebemos), conforme esclarecido pela simpática empregada que nos serviu, o Tian Yi Jiao é seguramente o melhor e mais genuíno restaurante chinês na capital.

Welcome to Tian Yi Jiao

Welcome to Tian Yi Jiao

Descobrimos este shangri-la totalmente por acaso, durante uma caminhada pela zona de Arroios num dia particularmente ventoso, em que as ruas por trás da Almirante Reis pareciam um bocadinho mais abrigadas do que a avenida. Se a ementa colocada na janela auspiciava um óptimo jantar, a visão de abundância com que nos deparámos quando entrámos no restaurante foi ainda mais esclarecedora: três mesas redondas com capacidade para 10 pessoas cada, totalmente repletas de iguarias que iam desde as ostras até pratinhos de edamame. 10 minutos depois de entrarmos, chegaram os sortudos destinatários deste banquete: um grupo de cidadãos chineses, distribuídos pelas três mesas em grupos de homens, mulheres e crianças. Só não ficámos a suspirar pelas iguarias de entrada e pela sopa de noodles e ovos estrelados (estrelados, não escalfados) servida pelas três mesas, porque o nosso próprio jantar foi, sem sombra de dúvida, dos mais deliciosos e memoráveis que alguma vez tivemos em Lisboa.

Good things come to those who wait.

Good things come to those who wait.

Começámos por pedir sopa de bola de peixe, salada de tofu e ovo preto e uma entrada de algas marinhas em molho Sichuan; a simpática empregada que nos serviu indicou de imediato que não havia algas naquele dia. Aproveitámos a disponibilidade da senhora (muito prestável, a contrastar positivamente com o serviço acelerado do vizinho Hong Kong Grande Palácio) para pedir que nos sugerisse uma alternativa, e não hesitámos em encomendar as duas recomendações: crepes de peixe Wenzhou e massa de arroz “rodela salteada” (sic). Em termos do tamanho das porções, a quantidade de comida pedida teria sido suficiente para alimentar três pessoas com espaço na barriga. A qualidade dos quatro pratos era impressionante, e será difícil não entrar num registo food-porn / nostálgico-suspirante ao recordar a experiência:

Massa de arroz rodela salteada – a Primavera chinesa num prato, em que a textura fresca e trincável dos vegetais (ong choy / morning glory, cogumelos shitake, cenouras, alho francês e cebolinho) contrasta com suaves rodelas de massa de arroz, pontuados por ovo mexido e um delicioso molho à base de carne de porco. Este é um dos pratos vegetarianos “em princípio”, que ilustra bem o cuidado que os clientes vegetarianos deverão ter antes de encomendar seja o que for num restaurante chinês.

Massa redonda

Massa redonda debaixo de lovely greens.

Salada de tofu e ovo preto – o momento alto (e frio) da refeição, onde cubos de tofu de excelente qualidade se encontram com pedaços de ovo preto (century egg), regados por um molho riquíssimo e salgado à base de soja e óleo de sésamo.  O pormenor genial surge na utilização de açúcar granulado (!) sobre o tofu para atingir o contraste perfeito entre salgado/doce e suavidade do tofu /areia crunchy do açúcar. Uma iguaria comovente para o Miudezas, embora alertemos para o facto de o sabor forte e a textura gelatinosa do ovo preto poder não ser fácil para alguns paladares.  

Very delicious.

Very delicious.

Sopa de bola de peixe (dose “pequena”) – servida num pyrex rectangular, com pedaços de peixe e choco (ainda com um bite agradável) a flutuar num caldo avinagrado e picante, pontuado por pimenta preta, cebolinho e alho francês. Uma versão semelhante à disponível no nº 43 da Rua do Benformoso, de confecção from scratch e utilizando produtos totalmente caseiros; embora confessemos preferir a versão mais industrial / guilty pleasure do Fu Jian em Carnaxide, em que os pedaços de choco e peixe são substituídos por “bolas” de peixe feitas com pão chinês recheado por uma salgadíssima e pouco saudável pasta de carne e peixe.

Sopa para um, para três.

Sopa para um, para três.

Crepes de peixe Wenzhou – pequenos e deliciosos crepes de peixe branco desfeito e refeito em pequenas rodelas fatiadas, temperado com gengibre, cebolinho e alho francês, para mergulhar num molho à base de vinagre chinês e soja. Leves e extremamente saborosos.

O encanto do peixe prensado.

O encanto do peixe prensado.

A lotação do restaurante é reduzida (cerca de 40 pessoas), não aceitam pagamento por cartão, e constatámos que também existem pratos mais “inofensivos” disponíveis na ementa: depois do grupo de cidadãos chineses, chegaram ainda quatro jovens que encomendaram noodles tipo chow mein e qualquer coisa na chapa – duas oportunidades desperdiçadas, na nossa opinião, perante a variedade de novos e deliciosos pratos por desbravar na ementa do Tian Yi Jiao.

Face ao impacto desta experiência, temos a certeza de que o Tian Yi Jiao será um dos sítios sobre os quais vamos escrever muitas vezes. O panorama da comida asiática em Lisboa acabou de tornar-se muito mais interessante.

Bucket list para jantares do futuro.

Bucket list para jantares do futuro.

Tian Yi Jiao – Rua António Pedro, 95, Lisboa (nas traseiras do Centro Comercial Portugália – R.I.P.).

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